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29 de Março de 2020

Samba,suor e alegria.

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Gisele Leite, Professor de Direito do Ensino Superior
Publicado por Gisele Leite
há 5 meses

Resumo:

Originado no ritmo do bumbo das galés romanas, a guiar os remadores escravos através de oceanos e conquistas, perpassando pela cultura africana, dos batuques e percussão, fugindo da polícia e alojando-se nos quintais e recantos distantes.

O samba é polissêmico e vasto sendo capaz de customizar os variados ritmos da Europa, dos EUA e do Brasil. E, está vocacionado a eternamente a se definir em busca da liberdade... redesenhando-se constantemente na realidade brasileira.

Abstract

Originated in the rhythm of the bass drum of the Roman galleys, to guide slaves rowing across oceans and achievements, passing through the African culture, drums and percussion, fleeing police and lodged in the far corners and backyards.

Samba is polysemic and vast being able to customize the varied rhythms of Europe, the USA and Brazil. And is eternally devoted to define in search of freedom ... redesigning itself constantly in Brazilian reality.

A palavra samba de origem banta[1], refere-se ao gênero musical popular de origem africana, dotado de compasso binário, ritmo sincopado e marcado por instrumentos de percussão. Numa outra acepção, samba significa dança urbana e tipicamente carioca que constitui hoje o principal tipo de dança brasileira de salão, de par entrelaçado.

A etimologia da palavra “samba” provavelmente deriva do quimbundo semba[2] significando umbigada, ou ainda, estar animado ou estar excitado. Porém, também há quem afirme que a origem da palavra refere-se à língua luba e com outras línguas, nas quais o significado seria saltar, pular ou saltitar com alegria.

O dia nacional do samba é comemorado em dois de dezembro e surgiu por iniciativa de vereador baiano que quis homenagear Ary Barroso que compôs “Na Baixa do Sapateiro”, porém naquela época nunca havia visitado à Bahia. E, foi exatamente em 02 de fevereiro de 1963 que se deu sua visita a terra baiana e, então, essa data fora escolhida e serve atualmente para a comemoração nacional do samba.

A origem do samba está relacionada com outros gêneros musicais populares marcados com a expressão corporal e dança o que lhe confere uma natural sensualidade. A partir do semba que os viajantes portugueses descobriram no século XVIII em Angola e no Congo, Câmara Cascudo descobriu três tipos de dança que continham a base do ritmo que originou os sambas brasileiros. Tais danças eram da umbigada, a de pares e de roda que foram trazidas para o Brasil pelos escravos e desenvolveram-se desde o Maranhão até São Paulo.

Mas, em cada local recebeu um nome diferente e adquire um jeito diferente. Assim hoje identificamos também o “tambor de crioula” no Maranhão, “bambelô” no Rio Grande do Norte, o “ coco”, o “milindo”, no Piauí e samba no Ceará e Paraíba; o “coco de parelha” trocada, “coco solto”, o “troca parelha” ou “coco trocado”, o “virado” e o “coco em fileira” em Pernambuco; o samba de roda e o “batebaú” na Bahia; o jongo[3], samba e partido alto no Rio de Janeiro.

"Samba mesmo é no passo curto e miúdo, é drible de corpo, é “no faz que vai, mas não vai”, é no passo largo cheio de ginga, é no balançar dos braços, é no girar constante da cabeça, mostrando um sorriso contagiante, uma combinação improvisada de movimentos que ninguém do mundo consegue fazer igual ao brasileiro".

O samba, além de ritmo e compasso definidos musicalmente, traz historicamente em seu bojo toda uma cultura de comidas (pratos específicos para ocasiões), festas, roupas (sapato bico fino, camisa de linho etc.), danças variadas (miudinho, coco, samba de roda, pernada etc.) e, ainda a pintura naif[4], de nomes consagrados como Nelson Sargento, Guilherme de Brito e Heitor dos Prazeres, para citar apenas três pintores, além de artistas anônimos das comunidades (pintores, escultores, desenhistas e estilistas) que confeccionam as roupas, fantasias, alegorias carnavalescas e os carros abre-alas das escolas de samba.

Tanto o lundu[5] como o samba são dois gêneros musicais sendo que este último, mais popularizado a partir de 1930 e passou a ser considerado como genuíno representante de nossa “identidade nacional[6]”.

Conhecem-se diversas variações de samba, tais como: samba-enredo, samba-canção, samba-exaltação ou samba cívico, samba de gafieira, samba de breque, samba de roda e samba de partido alto.

Abordaremos de forma resumida os principais tipos de samba. O samba-enredo surgiu no Rio de Janeiro em 1930 e desenvolvia tema relacionado e escolhido para o desfile das escolas de samba[7] que ocorria anualmente. Em geral segue temas sociais e culturais o que vem a definir toda a coreografia e cenografia usada para desfile.

O carnaval[8] é palavra que deriva do latim “carne levare” significando abstenção de carne. Já a Idade Média indicava o período de festividades profanas, que começavam no dia de Reis e terminavam na Quarta-feira de Cinzas. Trata-se de festa popular coletiva, realizada anualmente por três dias que antecedem a quarta-feira de cinzas.

Samba-canção é urbano e bem comum nas décadas de 1930 e 1940 que associava letras sentimentais e melosas ao ritmo do samba carioca e acentuava o caráter melódico. Na esteira da modernização do samba urbano do Rio de Janeiro, num processo de distanciamento do maxixe. É também chamado de “samba do meio do ano”, é considerado o mais lento dentro das vertentes do moderno samba urbano, é focado em temas como solidão e na chamada “dor de cotovelo”.

Conheceu o apogeu em 1940-50 onde se destacou “Pra que mentir” (de Noel Rosa), “As rosas não falam” (de Cartola), “A flor e o espinho” (Nelson Cavaquinho) e Linda Flor (Ai, Io, iô) de Henrique Vogeler. Segundo José Ramos Tinhorão é resultado de experiências iniciadas por compositores semieruditos como Vogeler, Heckel Tavares e Joubert Carvalho, mas aos poucos passaria para o domínio de compositores oriundos de camadas pobres e muitos dos quais ignorantes da música formal.

Samba exaltação ou samba cívico[9] que possui letras patrióticas e ufanistas que muito ressaltam as qualidades do país e em sua estrutura é acompanhado de orquestra. Como bom exemplo temos a “Aquarela do Brasil” de Ary Barroso e gravada em 1939 por Francisco Alves[10], o conhecido “Rei da Voz”.

Samba de gafieira[11] foi criado na década de 1940 e tem acompanhamento orquestrado. Possui ritmo rápido e forte em seu conteúdo instrumental sendo dançado nos salões das casas noturnas.

A gafieira era onde se reunia o proletariado, mas admitia também a rapaziada da classe média, remediada pela sorte, permitindo-se a dança e facilitando a corte. A moral e a ética da gafieira eram defendidas ardentemente, pelo fiscal de salão, não sendo permitido ao cavalheiro aproximar-se da dama mais do que o necessário do rodopio no salão. Atualmente está tudo muito diferente.

A gafieira se tornou um lugar de gente refinada, tornaram-se mesmo elitizadas. Mesmo assim, toda gafieira que se preza tem lei e tem igualmente fiscal de salão.

No Estatuto da Gafieira da Estudantina (uma das mais antigas e tradicionais do Rio de Janeiro) destacam-se os seguintes mandamentos: art. 1. Não é permitida a entrada de cavalheiros: a) de camisetas sem mangas; b) de bermudas; c) de chinelos; d) alcoolizados; e) de chapéu ou qualquer outro objeto que cubra toda a cabeça.

Art. 2. Não é permitida a entrada de damas: a) de shorts curtos; b) de camiseta tipo regata; c) de chinelos; d) de chapéu e lenços tipo turbante;

Art. 3. No salão não é permitido: a) uso de bolsa a tiracolo; b) portar cigarros acesos na pista de dança; c) entrar na pista de dança com copos ou garrafas; d) dançar mulher com mulher e homem com homem;

Art. 4. No interior da gafieira não é permitido: a) beijar demoradamente ou escandalosamente; b) cavalheiros colocar damas no colo; c) provocar confusões; d) berrar e gritar; e) colocar os pés ou subir nas cadeiras e mesas; f) dançar espalhafatosamente, incomodando os outros bailarinos.

Art. 5. A desobediência de qualquer um desses artigos poderá implicar nas seguintes sanções: a) advertência verbal; b) retirada do recinto.

Samba de breque possui momentos de paradas rápidas, onde o cantor introduz seus comentários em geral, jocosos ou em tom crítico. Um dos mestres deste estilo foi Moreira da Silva[12].

A principal característica do estilo é a pausa no acompanhamento acentuadamente sincopara para intervenção declamatória do intérprete. Tais paradas bruscas são chamadas “breques”, designação abrasileirada do inglês break, ou seja, para os freios de automóveis.

Segundo o crítico musical Tárik de Souza, o samba-de-breque é uma variante do picote rítmico do samba-choro. O cantor Luiz Barbosa foi o primeiro a trabalhar com o samba-de-breque. Como exemplo temos: "Rosalina" (composição de Haroldo Lobo e Wilson Batista).

Quem realmente popularizou e consagrou tal estilo fora o cantor carioca Moreira da Silva, quando cantou o samba "Jogo Proibido" (de composição de Tancredo Silva, Davi Silva e Riberio da Cunha) no Cine-Teatro Méier.

Samba de partido alto possui letras improvisadas e relata a realidade dos morros, comunidades e regiões mais carentes do Brasil. É considerado o grande estilo dos grandes mestres do samba como Moreira da Silva, Martinho da Vila e Zeca Pagodinho.

Em linhas gerais, o partido-alto antigo seria uma espécie de samba instrumental e ocasionalmente vocal (feito para dançar e cantar), constante de uma parte solada, chamada "chula" (que dava a ele também o nome de samba raiado ou “chula-raiada”), e de um refrão (que o diferenciava do samba corrido).

Já o partido-alto mais moderno seria espécie de samba cantado em forma de desafio por dois ou mais contendores e que se compõe de uma parte de coral (refrão ou "primeira") e uma parte solada com versos improvisados ou do repertório tradicional, os quais podem ou não se referir ao assunto do refrão.

Atualmente, costuma ser acompanhado violão, cavaquinho, pandeiro, surdo, agogô e outros instrumentos de percussão. Sob esse estilo se incluem, hoje, as várias formas de sambas rurais, as antigas chulas, os antigos sambas corridos (aos quais se acrescenta o solo), os refrãos de pernada (batucada ou samba duro), bem como os chamados "partidos cortados", em que a parte solada é uma quadra e o refrão é intercalado (raiado) entre cada verso dela. Entretanto, transcendendo qualquer aspecto formal, partido-alto é, em síntese, o samba da "elite dos sambistas", bem-humorado, encantador e espontâneo.

O partido-alto[13] da década de 1970 sofreria novas modificações, vindo a gerar o movimento conhecido por “pagode de raiz”, movido a banjo e tantã. Antes, “pagode” era o nome dado no Brasil, pelo menos desde o século XIX, a habituais reuniões festivas, regadas a música, comida e bebida. E nos pagodes, a música tocada era o samba, especialmente a vertente “partido-alto”.

Mas com a evolução, estes encontros adquiriram outra feição. E já a década de 1980, os pagodes eram febre no Rio de Janeiro e o termo logo compreenderia um novo estilo de samba, rapidamente transformado em apreciado produto comercial pela indústria fonográfica. E, neste processo, o estilo pagode muito se distanciou do partido-alto que corresponde ao samba caracterizado por elaboração, elegância e refinamento.

O samba de partido-alto no século XXI é formado uma vasta gama de sambas apoiados em um estribilho e com segunda, terceira e quarta partes soladas, desenvolvendo o tema proposto na letra. O estilo de partido-alto com versos realmente improvisados vem caindo em desuso, não só pela diminuição de rodas de samba, como pela facilidade de repetir versos pré-elaborados, gravados e difundidos via álbuns, rádio, televisão, entre outros.

Pagode também nasceu carioca e na década de 1970 e se disseminou fartamente nas décadas seguintes. Possui um ritmo repetitivo, utiliza instrumentos de percussão e ainda sons eletrônicos. Apresenta melodias letras simples e românticas.

Há quem afirme que pagode[14] não é samba apesar de usar os mesmos instrumentos musicais, não sendo considerado nem mesmo gênero musical (que é categoria musical que pode ser definida pelos instrumentos musicais, pelo texto conteúdo sacro, profano, cívico, romântico, de breque), por função (prelúdio, encerramento, dança, ritual e, etc.), por sua estrutura (linear, segmentada, repetitiva e, etc.), e por contextualização (seja pela interpretação, localização geográfica, cronológica e etnográfica).

Sambalanço surgiu nos anos cinquenta nas boates paulistas e do Rio de Janeiro. Recebeu influência do jazz e a figura mais representativa é Jorge Bem Jor[15] que misturou o samba com elementos de outros estilos musicais.

O samba de balanço surgiu no início da década de 1960 nas boates paulistas e cariocas. Considerado como subproduto da bossa nova, correspondendo ao estilo intermediário entre o samba tradicional e a bossa nova, onde há o deslocamento da acentuação rítmica no qual recebera grande influência do jazz.

Paralelamente à ascensão da bossa, escalava as paradas musicais o sambalanço. Sem chegar a constituir-se propriamente num movimento, injetou mais “teleco-teco” [16](como se dizia na época) no velho ritmo gestado na casa das tias baianas no centro do Rio no começo do século.

O samba surgiu da intensa mistura de estilos musicais de origem africana e brasileira, sendo ritmo musical tocado com diversos instrumentos de percussão (tambores, surdos, timbau) e acompanhado de violão e cavaquinho. Em geral, as letras dos sambas narra a vida cotidiana das cidades, e mais particularmente da população pobre e moradora de favelas, mocambos, comunidades ou periferia.

O termo “samba[17]” é de origem africana e tem seu significado relacionado às danças típicas tribais do continente. E, já se encontram as primeiras raízes do samba no Brasil Colonial com a chegada da mão de obra escrava em nosso país.

Contudo, há quem aponte a origem do ritmo binário no Império Romano, e mais precisamente na percussão das galés romanas, que se guiava com o remar dos escravos. O ritmo das remadas era marcado pelo som de flauta ou pelas batidas de um tambor. Pois sincronizando os remadores, evitava-se a fadiga. Desta forma, a música das galés fora precursora das marchas marciais dos exércitos.

O ritmo do bumbo romano que era situado na retaguarda da embarcação e determinava a velocidade de deslocamento no mar. Os remadores, aliás, ignoravam completamente o destino posto que ficassem no bojo da nau, de onde não lhes era possível ver o mundo exterior.

Sobre o destino da viagem só podiam os remadores presumi-lo e, particularmente aquele que tinha conhecimento e empunhava a cana do lema ou do timão (assim os escravos encarnavam um “motor cego”).

Porém, o samba era tido como gênero musical maldito, sendo perseguido e tratado como “caso de polícia[18]” justamente por estar identificado com as camadas mais populares, em sua maioria negra e mulata que sempre sofreu preconceito pela chamada “boa sociedade” composta por famílias de brancos.

Havia até ofensas explícitas que apontavam o samba como coisa de negros e vadios ou de camadas mais baixas. Tais camadas foram literalmente empurradas para fora da cidade em razão da política de modernização e o saneamento básico do Centro da antiga Capital Federal, sendo deslocados para os morros e bairros distantes do Centro ainda no final do século XIX e no início do século XX, no Rio de Janeiro.

A polícia, quase sempre fazia investida (a chamada de “batida”) na casa de Tia Ciata e nas outras casas onde se organizavam atividades similares, com o objetivo de prender os desocupados que participavam do candomblé e do samba de terreiro.

A roda de samba, na sala onde Pixinguinha era contumaz frequentador era uma ótica desculpa para confundir os policiais. E entoava toques específicos para avisar aos participantes sobre a chegada da polícia. O que conferiu certo gingado[19] à lei e, também desenhou as primeiras características do samba como sendo malandro[20] e xistoso.

Os tipos de samba mais conhecidos e de maior sucesso são os da Bahia[21], do Rio de Janeiro e de São Paulo. O samba baiano é influenciado por lundu e maxixe dotado de letras simples, balanço rápido e ritmo repetitivo. Aliás, a lambada que é neste estilo possui origem no maxixe.

No Rio de Janeiro, o samba está mais relacionado à vida nos morros e favelas e contam sobre a rotina urbana dos trabalhadores e das dificuldades geradas pela pobreza sempre com um toque de humor e malícia (ironia popular).

Entre os paulistas o samba ganhou conotação de mistura étnica, pois é visível a influência italiana e o cantar do sambar recebeu o sotaque dos imigrantes e operários do mais rico Estado da federação brasileira.

Recentemente, em 2004 o então Ministro da Cultura, Gilberto Gil, apresentou à UNESCO o pedido de tombamento do gênero "Samba", sob o título de "Patrimônio Cultural da Humanidade", na categoria "bem imaterial", através do Instituto Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Já no ano seguinte, o samba-de-roda do Recôncavo Baiano foi proclamado pela Unesco "Patrimônio da Humanidade" na categoria de "Expressões orais e imateriais".

Em 2007 o IPHAN conferiu registro oficial, no Livro de Registro das Formas de Expressão, às matrizes do samba do Rio de Janeiro: samba de terreiro, partido-alto e samba-enredo. Neste mesmo ano, o samba – tido como gênero musical e pela primeira vez gravado 90 (noventa) anos antes, por Donga com seu "Pelo telefone" (Donga e Mauro de Almeida) - foi celebrado no Instituto Cultural Cravo Albin com o evento "Da cachaça ao champanhe", com a presença de Vó Maria, viúva de Donga, e a Ala das Baianinhas do Império Serrano.

Há um traço comum no carnaval de todas as épocas e, em todo o mundo que é a subversão, é o “virar pelo avesso” as regras. Então, na cadência da música, o rei vira plebeu (e se comporta de forma que sua majestade antes impedia), o plebeu vira nobre (e reina absoluto com sua criatividade e pobreza) e poderoso e experimenta a magia contagiante de fantasiar-se e ter mesuras peculiares de outra posição social.

Durante as festas pagãs[22] de Roma Antiga é onde verificamos as origens do carnaval, eram as festas em homenagem a Baco[23], onde os escravos e senhores invertiam papéis, assim por um dia, eram servos que mandavam e eram servidos e se regozijavam de préstimos de seus suseranos.

Também na Idade Média existia similar subversão onde se realizavam missas e procissões cômicas[24] regidas por personagens bizarros tais como o Rei Momo[25], coringa e duendes e, etc...

A véspera da quaresma os foliões debochavam e caricaturavam os próprios costumes religiosos e da Igreja. No Brasil, no entanto, não havia tantos papéis trocados nos carnavais, mas registrava-se uma reviravolta de comportamentos. Entre as festas como as conhecidas como entrudos[26], era comum naquela época, as pessoas atirassem bolas de cera com água de cheiro[27] (perfume) nos outros, e ainda havia guerra d’água pela rua.

Já em 1832 ao visitar o carnaval de Salvador, Charles Darwin acompanhado de dois tenentes de marinha britânica, se assustara com os perigos do carnaval baiano. Afirmando que era difícil preservar alguma dignidade humana nesses festejos.

O jogo carnavalesco do entrudo[28] foi proibido[29] várias vezes por alguns governantes do Brasil Colonial: em 31 de janeiro e 13 de fevereiro de 1608; em 24 de fevereiro e 22 de outubro de 1686; em 20 de setembro de 1691; em 6 e 20 de fevereiro de 1734; e em 25 de fevereiro de 1808, entre outras datas. Entretanto, tais medidas eram inoperantes, pois o entrudo continuava soberano como divertimento.

Em 1846 surgiu a figura do Zé Pereira, grupo de foliões de rua com bumbos e tambores. Depois vieram os cordões, as sociedades carnavalescas, blocos e ranchos[30]. O corso, hoje desaparecido, consistia num desfile de carros pelas ruas da cidade, todos de capota arriada, com foliões fantasiados atirando confetes e serpentinas uns nos outros.

É verdade que por todo o país, a polícia até tentava conter os entrudos[31], mas de fato efetivamente não conseguia. E, prosseguia o carnaval brasileiro em ser uma algazarra repleta de irreverência e de uma alegria infectocontagiosa.

Leandro Narloch em sua obra “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil” aventou a hipótese de um ditador fascista como Il Dulce Benito Mussolini[32] (que fora aliado de Hitler da Alemanha nazista) tivesse o direito de disciplinar o carnaval.

Obviamente não haveria papéis trocados e nem mesmo arremesso de bolas de cera ou guerra de água, ou jatos de perfume. Seria um desfile patriótico, com ritmo metodicamente marcado para a evolução. Onde se seriam permitidas músicas edificantes e ufanistas.

A melodia só poderia ser executada por instrumentos considerados próprios da cultura nacional. Adicionando a presença de algumas celebridades seminuas ornadas de penas e paetês, teríamos o cenário hoje presente no Sambódromo carioca que mistura bizarrice, cultura popular e propaganda político-partidária.

Nessa evolução surgiu o atual desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro e seu atual formato deve muito a ideologia fascista particularmente a seu Gegê, o pai da nação brasileira, Getúlio Vargas[33] que misturou sua imagem à cultura nacional e popular, exatamente como Mussolini fazia[34].

As regras de apresentação contemporâneas do carnaval efetivamente surgiram com o fascismo. Em 1937 quando a ditadura getulista tanto se assemelhava com a ditadura italiana, restou estabelecido que os sambas-enredo deveriam homenagear a história do Brasil. Embora que as primeiras regras de avaliação e ordem do desfile nasceram dois anos antes, quando o interventor federal do Rio de Janeiro, Pedro Ernesto começou a financiar as escolas de samba. Naquela época, a apresentação ocorria na Avenida Rio Brasil, o mesmo locus onde havia os desfiles militares que comemoravam o sete de setembro, a república, e demais festas cívicas.

Os instrumentos de sopro foram proibidos e só poderiam participar de entidades registradas como sociedades recreativas civis[35]. A “Deixa Falar” que fora a primeira escola de samba[36] que se têm notícias desfilou em 1929 usando em sua comissão de frente cavalos da Polícia Militar do Rio de Janeiro.

Mais tarde, teve como samba-enredo “A Primavera e a Revolução de Outubro” homenageando a tomada de poder por Getúlio Vargas em outubro de 1930. A verdade é que a organização do desfile do carnaval brasileiro teve no fascismo italiano a sua manjedoura. O patriotismo deu grande incentivo ao carnaval e promoveu a folclorização do samba[37].

A história do samba em dois momentos opostos. O primeiro momento quando os sambistas eram perseguidos pela polícia[38] que duramente reprimia manifestações culturais de negros e mestiços que então eram obrigados a tocar escondidos, em vilas, vielas e quintais.

No segundo momento acontece o contrário, quando o governo passou a incentivar o carnaval e as músicas populares. Mas tal mudança de posturas não aconteceu assim tão de repente. E, o estilo negro e os ritmos herdados da África tornaram-se populares e passaram a fazer parte das festas dos ricos e poderosos.

Em 1802 o comerciante inglês Thomas Lindley narrava sobre as festas baianas dos ricos embaladas pela sedutora dança dos negros e por uma mistura de coreografia africana e fandangos espanhóis e portugueses. Em Portugal, os músicos populares brasileiros eram bem recebidos e até hoje as novelas brasileiras ditam estilos, comportamentos e moda, e são muito bem recebidas pela sociedade lusitana.

No final do século XVIII, um pouco antes da corte portuguesa fugir para o Brasil, o músico Caldas Barbosa autêntico mestiço que encantou a corte de Dona Maria I, a louca, tocando lundus[39]. Nessa época, o samba em sua origem era muito pouco folclórico ou nacionalista.

Evidentemente que os estilos europeus estão na origem do samba tanto quanto está a percussão africana. Os primeiros sambistas eram letrados e capazes de ler partituras musicais e, ainda tocavam instrumentos clássicos como violinos, pianos e, participavam de bandas de jazz, adoravam o ritmo do tango e conhecer intimamente as atrações musicais nos cabarés parisienses[40].

A cara do samba tem hoje, de símbolo da autenticidade brasileira e da resistência da cultura negra dos morros cariocas, é uma criação mais recente, que de certa forma abafou a sua primeira face.

O mistério do samba que se transformou em música nacional através dos esforços de muitos grupos e indivíduos (negros, brancos, ciganos, baianos, cariocas, intelectuais, políticos, folcloristas, compositores eruditos, poetas e até mesmo embaixador norte-americano) que contribuíram para a fixação do samba como gênero musical genuinamente brasileiro.

Na verdade nunca existiu o samba puro, pronto e autêntico e que depois fora magicamente transformado em música nacional brasileira. Basta analisar os primeiros sambas que foram pioneiros como de Pixinguinha[41] e Donga[42] (1917) que começaram juntos provavelmente tocando na casa da Tia Ciata situada na Praça Onze, no centro do Rio de Janeiro.

A famosa quituteira Ciata chamava-se em verdade Hilária Batista da Silva[43] era negra, baiana que migrou para o Rio de Janeiro, e vendia doces e quitutes vestindo um turbante branco e saia rodada de candomblé[44], essa figura peculiar significou uma autêntica inspiração para a ala das baianas do desfile da escola de samba.

Aliás, a palavra “samba” significaria um evento festivo e não propriamente um estilo musical. O samba surgido na casa da baiana lembrava o maxixe considerado como o “tango brasileiro” derivado das polcas europeias[45] onde inclusive, se admitia os instrumentos de sopro, como por exemplo, a flauta. Um dos protagonistas destes eventos musicais era Pixinguinha[46].

Mário de Andrade além de descrever Pixinguinha em sua obra também se referiu à tia Ciata alegando que passava os dias de violão no colo inventando melodias maxixadas, tendo folclorizado sua figura, como uma sinistra mãe de santa, “negra velha com um século de sofrimento, javevó e galguinha[47] com a cabeleira branca esparramada”.

“Pelo Telefone”, o primeiro samba gravado por Donga que lembra mais um maxixe, que era um ritmo musical bem em voga na época (1917). Em 1919, Donga e Pixinguinha criaram a banda chamada “Oito Batutas” que animava a sala de espera “Cine Palais” no Rio de Janeiro.

Seus integrantes tocavam pianos e instrumentos de sopro e se apresentavam trajando ternos e sapatos engraxados que muito se assemelhava, as músicas das “jazz bands” americanas. E tocavam pouco de tudo: lundus, polcas, batuques, maxixes, marchinhas e sambas.

Os “Oito Batutas[48]” se apresentaram para os reis da Bélgica quando em visita ao Brasil na embaixada norte-americana no pavilhão da fábrica da General Motors e até mesmo a nobreza brasileira como a princesa Isabel em exílio na França.

O grupo passou seis meses em Paris[49], se apresentando na boate Le Shéhérazade[50] e também em teatros de Buenos Aires. Durante a excursão internacional, se apaixonaram pelo jazz[51], e Pixinguinha ganhou um saxofone de presente. E, em 1927 quando se apresentavam no sul do Brasil e no repertório há sambas, marchas, emboladas, maxixes e músicas de jazz.

Também era admirador da música internacional Sinhô que era flautista, pianista e violonista que era muito popular na década de 1920 e, se deve a este músico a fixação do samba como estilo musical.

Sinhô[52] era a típica personificação do rei do samba e fora admirado pelo poeta Manuel Bandeira[53], tendo encantado o Rio de Janeiro, com suas marchinhas carnavalescas (muito parecidas com canções europeias) tentava divulgar suas partituras de suas músicas.

O samba era inspirado nos modismos europeus e norte-americanos e basicamente formado por piano e instrumentos de sopro até que o nacionalismo viesse ganhar ideologicamente força. Assim o nacionalismo provou o nascimento de um novo samba e criou a imagem que temos hoje.

Se houvesse uma sessão de terapia entre os países o Brasil representaria um atormentado paciente, sendo bipolar (oscilando entre o negativismo e o positivismo eufórico sobre si próprio).

Aliás, durante a terapia o Brasil insistiria em questionar sua identidade, procurando saber qual sua imagem afinal e, qual deveria ter e transmitir. E, o que me diferencia dos demais países?

A identidade nacional[54] brasileira sempre foi um problema por vezes incontornável e fora construída aos sopapos, sob os traumas e, sempre oscilamos entre o vira-lata[55] sarnento e o cão exótico de pedigree tropical. Lembremos que até 1930 ícones como samba, feijoada, capoeira[56] e o futebol não representavam diretamente a identidade nacional. O futebol era de origem inglesa e muito criticado pelos intelectuais.

A falta de identidade nacional era considerada um grande problema e nada inédito que vinha desde os tempos do Império e só se agravou com a república. Com a derrubada da monarquia em 1889, extinguiram o fato de os brasileiros serem os súditos de Dom Pedro II.

O Brasil, sem coroa, ficou “sem cara”. Os brasileiros também sentiam vergonha de si próprios e, nos anos oitocentos e no começo do século XX quando estavam em voga várias teorias raciais europeias.

Um desses teóricos sobre raças foi o conde francês Arthur de Gobineau, para quem a mistura racial era grande causa de decadência de civilizações e da degeneração dos povos. Sobre o Brasil, o Gobineau só destaca a particular e excessiva depravação oriunda certamente da mestiçagem. Chegou a afirmar: “São todos mulatos, a ralé do gênero humano, com costumes condizentes”.

Também Louis Agassiz[57], zoológico suíço ao visitar o Brasil destacou a existência dos males da mistura de raças, e apontou evidente deterioração decorrente da amálgama das raças aqui mais acentuada que em outros países.

E quando em contato com tais ideias, os intelectuais entenderam que a culpa de todos os problemas nacionais era a mistura de raças.

O sociólogo Nina Rodrigues[58] em 1899 chegou a publicar obra intitulada “Mestiçagem, Degenerações e Crime” onde defendia que os negros e mestiços tinham natural tendência a andar fora da lei. O que enfatizava ainda mais a vergonha que tinha de si próprios.

Foi em 1933 quando o sociólogo Gilberto Freyre que escrevera “Casa Grande e Senzala” [59] que contrariava os pensadores racistas e, celebrava a mistura de índios, negros e brancos que, considerava uma riqueza que definia o Brasil.

No Brasil, a miscigenação teve início logo quando os portugueses desceram de suas caravelas. O ambiente de intoxicação sexual destacava-se o europeu que aportava escorregando em índias nuas que estavam na idade da pedra lascada e além de seus corpos pintados exibiam uma ingenuidade ímpar. Os próprios padres precisavam ter muito cuidado com o contato com os indígenas senão atolavam o pé em carne e pecado.

Também os portugueses eram menos ardentes na moral ortodoxa que os espanhóis e, menos restritos que os ingleses nos preconceitos de cor, raça ligados à moralidade cristã[60].

Já os índios brasileiros eram como “crianças grandes” que não tinham a resistência das outras civilizações norte- americanas tais como incas e astecas. Mesmo Gilberto Freyre[61] não conseguiu ir muito longe com a busca da identidade nacional.

Ora louvava o índio forte e belo, o autêntico bom selvagem[62], romântico e distante das disputas mesquinhas conforme os personagens de José de Alencar[63], ora torcia para que o povo embranquecesse, no sangue ou pelo menos nas ideias sorvendo ao máximo da cultura europeia que pudesse. Faltava a absolvição dos mestiços para que se fortalecesse um novo nacionalismo brasileiro.

Logo nas primeiras décadas do século XX, a devoção da pátria unia tanto ditadores de esquerda como os de direita, relacionava-se à Josef Stalin, o nazista Adolf Hitler e o fascista Benito Mussolini.

A caçada a alma brasileira, de sua autêntica raiz vinha com a valorização do folclore nacional, recuperando canções, danças, jeitos e trejeitos populares que os diferenciassem.

Conhecida essa tendência, os intelectuais brasileiros concluíram que a raiz autêntica era o mestiço, o caboclo[64] e, tal como Hitler que defendia a raça ariana, defender a raça brasileira.

O conceito da raça ariana[65] conheceu seu auge no século XIX até a primeira metade do século XX. Obteve maior ênfase pelo Partido Nacional Socialista da Alemanha que associava a identidade nacional alemã à raça ariana seria a base do princípio da unidade étnica com o fito de elevar o moral e orgulho do povo alemão destroçados pelo Tratado de Versalhes[66].

Herbert Spencer decidiu aplicar a noção de raça[67] ariana para definir a seleção do mais capaz dos indivíduos na evolução da raça humana. Deve-se à Spencer e, não a Darwin a criação da expressão “lei do mais forte”. Novas teorias raciais apesar de chamadas de darwinismo social pouco tinham a ver com as teorias de Darwin.

Vivenciamos uma época em que os escritores e poetas correram a pesquisar o folclore e as músicas populares no afã de encontrar as verdadeiras raízes da alma brasileira e muito antes dos modernistas já havia deslumbramento com a cultura e os hábitos do povo.

O pintor Almeida Junior[68] é um bom exemplo pois retratava cenas simples e humildes, como o caipira[69] tocando viola na janela de casa, tal qual retratado no quadro “O violeiro” de 1899.

No cenário europeu o nacionalismo unia políticos e intelectuais. A ação integralista brasileira em 1936 fora criada seguindo os moldes do partido fascista italiano e já contava com um milhão de afiliados.

O partido integralista além de ser de ultradireita e utilizar o cumprimento “anauê” (vocábulo tupi que tem significado afetivo “você é meu irmão!”) exaltava o caboclo tido como legítimo representante do povo e da cultura brasileira.

Luiz da Câmara Cascudo que foi chefe regional do partido integralista escrevera trinta e um livros e em sua maioria voltada para o gosto popular e as locuções tradicionais.

O líder integralista Plínio Salgado (1895-1975) era escritor, jornalista ligado aos modernistas e desenvolveu o viria a ser AIB, com a Sociedade de Estudos Paulistas (SEP) preocupada com os problemas gerais da nação brasileira. Os integralistas também ficaram conhecidos como os “camisas verdes” ou satiricamente apelidados pelos comunistas como os “galinhas verdes”.

Em 1929, o pintor e poeta Menotti Del Picchia e Guilherme de Almeida tinham participado da Semana da Arte Moderna de 1922 onde se divulgou o movimento verde-amarelista ou a Escola da Anta[70] (animal eleito como símbolo nacional).

O nacionalismo popular foi um lenitivo para nossa baixa estima e o complexo de inferioridade do brasileiro, mas gerou outro distúrbio que é o chamado complexo de Zé Carioca[71] que nos cobra certa singularidade local e um mal-estar com as expressões culturais que não pareciam ser genuinamente brasileiras.

Desta forma se completa o transtorno bipolar brasileiro, se antes a cultura europeia era fonte de civilização, pouco tempo depois se transformou numa influência contaminante e malévola. Conforme bem esclareceu a historiado Lília Moritz Schwarcz apud Narloch in verbis:

“Em sua maior parte, os modernistas eram jovens da elite[72] que tiveram mais ou menos contato com a cultura europeia, e, em um fenômeno comum a esse tipo de experiência, o confronto com o “velho” mundo os fez indagarem-se sobre a sua própria identidade. Eles inventam uma pátria à qual possam ter orgulho de pertencer. Contudo, essa invenção guarda muitos traços do “exotismo” e do “primitivismo” com que os europeus a percebiam.”(In: SCHWARCZ, Lilia Moritz apud NARLOCH, L. Guia Politicamente Correto da História do Brasil. 2ª ed. Ilustrações Gilmar Fraga São Paulo: Editora Leya, 2011. p.155.).

Na seleção dentro da cultura brasileira, do que era exótico, a primeira fase do samba não fora aprovada, tanto assim que Pixinguinha, Donga e Sinhô sofreram severas críticas pois suas composições eram muito pouco brasileiras, e o crítico Cruz Cordeiro em 1928 condenou a influência estrangeira.

Notaram-se ainda as influências norte-americanas em dois choros o que causou constrangedoras surpresas (às gravações jazzísticas dos choros “Lamentos” e “Carinhoso” de Pixinguinha, dos anos de 1928 e de 1930) [73].

O mesmo crítico não recomendou o disco que continha a composição “Carinhoso” que representava a obra-prima de Pixinguinha e, apontou a forte influência do jazz, e cuja introdução é um verdadeiro fox-trot[74].

A patrulha ideológica vigorava e, Mário de Andrade[75] contribuíra ativamente. Há um episódio que demonstrou como os intelectuais modernistas selecionaram só o que era exótico na cultura brasileira. Na década de 1920, Mário de Andrade conheceu Pixinguinha durante uma apresentação dos “Oito Batutas” em São Paulo. O escritor se interessou pouco pela música do grupo, porém estava muito interessado no folclore principalmente por estar escrevendo Macunaína, portanto precisava de detalhes sobre os rituais de macumba.

O referido trecho é retratado exatamente no sétimo capítulo quando Macunaína vai ao terreiro de candomblé do Rio de Janeiro da mãe de santo chamada de Tia Ciata, exatamente a qual pessoa em cuja casa nasceu o samba.

É bom frisar que a Tia Ciata em nada era exótica, enfim, era uma senhora casada com um funcionário público que fazia das recepções em sua casa um ponto de encontro frequentado por jornalistas e políticos. Mas, a obra de Mário de Andrade mostrava uma Ciata que é apresentada de forma folclorizada, e representada por uma figura de uma sinistra mãe de santo, uma negra velha, muito magra e sofrida além de exibir uma vasta cabeleira branca esparramada.

As religiões africanas fascinavam muito os turistas assim como os intelectuais da época, e logo teve um equivalente musical, era o “samba do Estácio” que era um estilo musical surgido no fim da década de 1920.

Tal samba não lembrava o maxixe, e sim, a marcha pois a melodia era marcada por tamborins e surdos. O “samba do Estácio” [76] era assíduo frequentador de bares, botequins e morros, e recorria ao improviso e técnicas primitivas se comparadas às técnicas utilizadas e desenvolvidas por sambistas e chorões como Donga, Sinhô e Pixinguinha.

O referido estilo musical ainda facilitava o desfile das escolas de samba conforme narrou, em 1974, Ismael Silva[77] que fora um dos fundadores da “Deixa Falar”. A verdade é que novos sambistas iam conscientemente contra o estilo anterior. Exaltavam a periferia e os morros cariocas apesar de muitos deles fossem brancos e terem até uma origem abonada.

É o caso de Braguinha[78] foi escritor e filho de importante industrial e estudou arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes. Outro nome que merece destaque é Noel Rosa[79] (um dos mais criativos sambistas do Estácio) estudou no tradicional Colégio São Bento e chegou a cursar Medicina.

Como tantos outros sambistas dessa geração, Noel Rosa adotou o marketing da pobreza, fazendo de si o representante da periferia carioca. Em um das suas composições (Palpite Infeliz[80]) realizou diversas saudações aos lugares do Rio de Janeiro considerados como recantos do samba.

No entanto, Noel Rosa nunca se referiu a Cidade Nova de onde saíram os sambistas da geração de Donga e Pixinguinha, como sendo o reduto de bambas[81]. No entanto, Noel Rosa nunca se referiu a Cidade Nova de onde saíram os sambistas da geração de Donga e Pixinguinha, como sendo o reduto de bambas. Assim ocorreu o deslocamento do samba do fundo das casas das tias baianas e quituteiras sob a clandestinidade para o morro e para o subúrbio e vilas operárias.

O marketing da pobreza funcionou e fez prosperar o novo estilo na década de 1930 já vestindo a imagem de expressão cultural popular e dos negros. Enfim, o samba se tornara folclore e deveria ser preservado e protegido das influências alienígenas.

O jornalista Carlos Lacerda em 1936 escreveu que o samba elegante das festas oficiais era deformado, tendo sido transformado em salada musical para gerar lucros as indústrias fonográficas. O lirismo da raça negra vive no samba.

Associava na época a música dos pobres como samba original que lutava para não ser adulterado pelo capitalismo. A verdade é que samba queria agradar o público e ganhar a vida e não fazer autoetnografia.

O curioso que o samba autêntico nasceu impuro e permeável às influências variadas, evoluindo e ganhando aparatos visuais e sonoros. Espetacularizando-se.

Reconhece-se enfim que os primeiros sambistas (aqueles que também tocavam jazz e maxixe) morreram irritados com os sambistas do morro. No fim dos anos 1960, o jornalista Sérgio Cabral apud Narloch, Leandro testemunhou um especial debate[82] havido entre Donga e Ismael Silva que versava em torno da definição do verdadeiro samba.

Um apontava a música “Pelo Telefone” de autoria de Donga como samba. Já Ismael arrematou dizendo que se tratava de maxixe. Ismael apontou a música “Se você jurar” que fora apontada por Donga como marcha.

A feijoada tanto como o samba passou pelo processo intenso de folclorização e passou a ser prato de negros, nascido nas senzalas por meio de aproveitamento de restos de carnes da Casa Grande. Mas de fato, a feijoada tem origem europeia e quem nos conta é Câmara Cascudo[83]. Nem índios, nem negros tinham hábito de misturar grãos como feijão com carnes. Tal técnica remonta do Império Romano e dos europeus latinos que faziam cozidos com misturas de legumes e carnes principalmente para vencer os invernos rigorosos.

Cada região de influência romana adotou sua variação, o cozido português, a paella espanhola, o bolitto misto do norte da Itália. E, ainda o cassoulet[84], da França foi criado no século XIV que é bem similar a feijoada, porém é feito com feijão branco, linguiça, salsicha e carne de porco ou de carneiro.

Aqui como o feijão preto[85] é espécie natural da América do Sul que os europeus adoravam então, o prato passou a ser admirado pelas elites brasileiras mais abastadas. A mais remota citação à feijoada consta no Diário de Pernambuco, de 07/08/1833 e fora servida no elegante Hotel Théâtre de Recife, sendo considerada uma das atrações das quintas-feiras “Feijoada à brasileira”.

Apesar do desprezo dos velhos sambistas, o samba do Estácio acompanhando o enredo das escolas ganhou o Brasil através das rádios e pela propaganda getulista. E os grupos de samba participavam de apresentações folclóricas nos eventos oficiais juntamente com as danças indígenas.

A Hora do Brasil programa de rádio criado por Getúlio Vargas e existente até os dias de hoje (agora chamado de “A Voz do Brasil”), incluía sambas das escolas em sua programação. E, em 1936 a Mangueira já comemorava ter um dos sambas transmitidos numa especial edição do programa, para a rádio nacional da Alemanha nazista (o que era um paradoxo pois exercia censura aos rádios e jornais da época, e assustava e cerceava escritores e artistas e proibia imigrantes europeus de falar estrangeira em público). O DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) financiava os blocos carnavalescos e o concurso de foliões e fantasias.

A transformação do samba em ícone nacional deve muito a Getúlio Vargas, o seu Gegê[86] como era carinhosamente chamado pelo povo brasileiro e, também ao Pato Donald (um personagem criado por Walt Disney).

O samba se confundia tanto com o Brasil que nascera o chamado samba cívico, cujo conteúdo elogiava o governo, o presidente e o país (além de exaltar o Estado Novo e seu grande timoneiro).

E o maior clássico do samba cívico é de autoria de Ary Barroso[87] é “Aquarela do Brasil” composta seis anos depois que Gilberto Freyre publicou “Casa Grande e Senzala” cujo conteúdo já relacionava o Brasil aos mulatos.

E a “Aquarela do Brasil” veio a servir de trilha sonora para o famoso desenho animado de Pato Donald chamado “Alô amigos” de 1942. Nesse, Donald então conhece um novo e inusitado personagem o Zé Carioca[88]. Então como dois amigos Donald e Zé Carioca caminharam pelo calçadão de Copacabana, tomaram uma cachaça (aliás, Donald engasga com o trago) enquanto que Zé toca um sambinha na caixa de fósforos[89] e, sambam junto de Carmen Miranda[90].

Fora muito significativo naquela ocasião, pois éramos (ou ainda somos) um país rural e pobre e nem participava do rol dos trinta países de maior economia do mundo. De súbito, a nação que há poucas décadas anteriores era considerada por Gobineau como uma reunião desastrosa de párias, mestiços e degenerados apesar disso, ganhou uma honrosa homenagem de Walt Disney de um dos países mais poderosos. Diante disso, o nosso transtorno bipolar se agrava e chega ao seu ápice num pico de euforia.

Foi nessa trajetória que o samba virou o símbolo da nação e do povo brasileiro, nacionalizou-se com a obsessão pelo exótico, pelo interesse manipulador de um presidente fascista e pela lúdica influência de um desenho animado.

Mas a ladainha de que o samba remete à raiz autêntica do Brasil é enfadonha, além de falaciosa. E nem existe estilo musical algum dotado de purismo, como querem e queriam alguns.

Observamos que em outros países de cultura negra, a música não rejeitou as modernidades e nem se apegou ao purismo e escrúpulos no sentido de não adotar instrumentos elétricos e eletrônicos.

E o jazz apesar de muito presente na propaganda ianque, não se tornou ícone da identidade nacional e continuou sendo estilo livre e aberto para se misturar e se diversificar e, mesmo hoje ressurge sob os tipos e moldes diferentes.

Já o samba há sempre alguém a condenar os que procuraram alterá-lo ou aperfeiçoá-lo. Em junho de 1940, em seu primeiro show no Brasil depois de temporada nos EUA, Carmen Miranda ousou cantar o samba em inglês[91]. E, teve da plateia cheia de políticos do Estado Novo, um sólido silêncio constrangedor, o que fizera com que mais tarde, revidasse com a música “Disseram que eu voltei americanizada”.

Também João Gilberto que ousou misturar o samba com o jazz criando o estilo chamado de “bossa nova[92]” fora alvo de críticas severas. Também o mangue beat[93] criado por Chico Science fora duramente criticado por Ariano Suassuna defensor ferrenho da pureza cultural pernambucana. E os integralistas ainda apontaram que o Ariano só gostava do que era folclórico, o seu lado Chico mas não do seu lado Science.

Os próprios sambistas padecem dessa busca purista e seguem obcecados em deixar o samba encarcerado numa jaula de cristal onde todos podem e devem apreciar, sem contudo, alterar-lhe a essência.

A exacerbada preocupação em cultura o exótico salienta Leandro Narloch, nos faz entender, por exemplo, o personagem de videogame Street Fighter II, produzido pela Capcom, o Blanka[94] (que é corcunda com o corpo verde, cabelos longos e alaranjados e que dá choques elétricos como um peixe amazônico, chupa os cérebros de seus adversários) que fora definido para retratar o brasileiro. Apesar disso, mais parece ser mentalmente deficiente. De tão exótico, conforme salientou Narloch, e tão feio e inusitadamente colorido parece ter saído direto da Sapucaí, palco dos carnavais cariocas, para defender a pureza da arte musical brasileira.

Uma das suas falas mais famosas é "You'll never survive in a jungle!" ("Você nunca vai sobreviver em uma selva!").

E, nós poderíamos retrucar: “samba, você nunca vai sobreviver a esse afã de pureza musical”. Afinal sua definição[95] é um dilema! Ou será um poema? Ou apenas mais um discurso popular regado por suor e alegria.

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[1] Grande quantidade de países da África fala-se línguas bantas: Camarões, Gabão, Congo, República Democrática do Congo, Uganda, Quênia, Tanzânia, Moçambique, Malauí, Zâmbia, Angola, Namíbia, Botsuana, Zimbábue, Suazilândia, Lesoto, África do Sul.

[2] Carlos Burity defende que a estrutura mais remota do semba situa-se no massemba (umbigada), uma dança angolana do interior caracterizada por movimentos que implicam o encontro do corpo do homem com o da mulher: o cavalheiro segura a dama pela cintura e a puxa para si provocando uma colisão entre os dois (semba).

[3] O jongo também é chamado de caxambu e corimá é uma dança de origem africana dançada ao som de tambores como caxambu. É essencialmente rural, fazendo parte da cultura afrobrasileira. Teve forte influência na formação do samba carioca, em particular, na cultura popular brasileira como um todo. Segundo os jongueiros, o jongo seria o "avô do samba".

[4] O termo “naif” presume a existência de forma por contraste de uma forma acadêmica de proceder nas artes em geral, dotada de forma educada na criação artística que os artistas desta corrente não seguirão. Na prática, contudo, também existem "escolas" de artistas naif. Com o passar do tempo tal estilo foi sendo cada vez mais aceito e valorizado. As principais características da arte naif, principalmente a pintura, são formas desajeitadas como se relacionam com determinadas qualidades formais, dificuldades no desenho e no uso da perspectiva que resultam numa beleza desequilibrada, mas, por vezes, bastante sugestiva, com o uso de cores primárias, sem grandes nuances, simplicidade no lugar da sutileza.

[5] O lundu, o samba, o maxixe, a marcha e mesmo o choro, e, ainda outras danças e ritmos afro-brasileiros fazem parte de nosso rico folclore e apresentam muitos pontos em comum.

[6] A presença do mulato como elemento complicador para a classificação racial brasileira. Tanto assim que alguns cientistas defendiam a tese de que o mestiço como híbrido, a realidade brasileira, no entanto, provava justamente o contrário. De maneira que nossos pensadores tiveram que inevitavelmente realizar adaptações das teorias importadas principalmente na busca da identidade racial da nação.

[7] Segundo Sérgio Cabral, o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro foi inventado pelo jornalista Mário Filho em 1932. Este desfile foi promovido pelo jornal Mundo Esportivo, que buscava um maior contato dos compositores dos morros com o público em geral. Nesta época o samba criado no Estácio já era tido como referencia em outras regiões. Na favela da Mangueira, por exemplo, surgiam nomes que se consagrariam como ícones na história da música brasileira como Carlos Cachaça (1902-1999) e Cartola (1908- 1980), que sempre faziam questão de se lembrar da importância e influência que os compositores do Estácio tiveram na fundação da escola de samba Estação Primeira de Mangueira.

[8] No carnaval, o samba é muito prestigiado e garante uma festa alegre para foliões e blocos e bandas de rua e aos olhos de quem assiste aos desfiles das escolas de samba que ocorrem nas capitais brasileiras também é considerado o “maior espetáculo da Terra”.

[9] Sua primeira audição é a da diva Aracy Cortes, a quem Ary deveu a consagração de seu nome para o público e no meio artístico.

[10] Francisco de Morais Alves (1898-1952) foi um dos mais populares cantores do Brasil. Seu primeiro sucesso foi a marcha carnavalesca “O Pé de Anjo”, do compositor Sinhô. Devido à sua voz firme e potente, fez jus à alcunha de o 'Rei da Voz. Compôs com Orestes Barbosa algumas obras-primas da canção brasileira: "Meu Companheiro", “A Mulher que Ficou na Taça","Dona da Minha Vontade","Por Teu Amor".

[11] Gafieira é o local onde tradicionalmente as classes mais humildes podiam frequentar para praticar danças aos pares, as chamadas danças de salão. Surgiu por volta do século XIX e o início do século XX. Palavra de origem obscura, mas há quem diga que advém da palavra gafe, pois era lugar onde as pessoas podiam de divertir sem compromisso, e de forma descontraída. A palavra também tem acepção pejorativa podendo designar prostíbulo, baile ou festa desprezível. Consta na biografia de Grande Otelo, escrita por Sérgio Cabral, quer era assíduo frequentador da gafieira Elite e também do Café Nice (onde o compositor Erastótenes Frazão o apelidou de Samburiqui).

[12] Antonio Moreira da Silva também conhecido como “Kid Morengueira”. Considerado o criador do samba-de-breque, Moreira da Silva iniciou sua carreira em 1931, com Ererê e Rei da Umbanda. Em 1992, fora tema do enredo da escola de samba Unidos de Manguinhos. Em 1995 gravou" Os 3 Malandros In Concert "com Dicró e Bezerra da Silva, aos 93 anos de idade. Em 1996, foi tema do livro Moreira da Silva - O Último dos Malandros. Com 98 anos de idade, ainda se apresentava em shows. Participou do histórico disco de Chico Buarque de Holanda, a" Ópera do Malandro "de 1979, fazendo dueto com o próprio Chico.

[13] Também chamado de “samba-duro”. Caracteriza-se pela violência em suas apresentações. Formavam-se círculos com o ritmo marcado pela palma da mão. O mais importante não era o samba de partido alto cantado, mas sim, a ginga do malandro, a rasteira ou pernada surgida da brincadeira. O samba-duro também chamado de “roda de batuqueiros” que passava na Balança (Praça Onze) e nas festas da Penha.

[14] O pagode é estilo de samba (embora existam estudiosos que neguem veementemente), tem suas origens no Rio de Janeiro e surgiu no final da década de 1970 e da década de 1980. O termo" pagode "está presente na linguagem musical brasileira desde século XIX. Inicialmente era associado às festas que aconteciam nas senzalas, e mais tarde, se tornou sinônimo de festa regada a alegria, muita bebida, comida e cantoria. Com tempo passou a ser usado como sinônimo de samba, por causa de sambistas que se valiam deste nome para suas festas. O pagode nasceu exatamente dessa manifestação popular completamente marginal aos acontecimentos musicais dos grandes meios de comunicação brasileiros. A procedência etimológica da palavra" pagode "é desconhecida, havendo diversas fontes indicando diferentes derivações.

[15] O samba-funk também é subgênero resultante da fusão do samba brasileiro do funk norte-americano e fora criado ao final da década de 1960 e pelo pianista Dom Salvador e o seu Grupo Abolição. Tim Maia e Jorge Ben Jor também participaram desse gênero.

[16] O samba sincopado é estilo de samba onde se acentua a síncope. É por vezes chamado também de samba do telecoteco. Na música, a síncope indicaria os desvios no padrão rítmico em que o som - articulado na parte fraca do tempo ou do compasso - prolonga-se para a parte forte do tempo seguinte. Ele indica a escrita de um tempo fraco de um compasso, prolongado até outro tempo de maior ou igual duração. O samba moderno urbano, surgido no Rio de Janeiro na década de 1910, era bastante ligado ao maxixe. No final da década de 1920, o samba passou por grandes transformações rítmicas, que mudaram o jeito de tocar, cantar e dançar em relação à primeira geração de sambistas - como Sinhô, Donga e João da Baiana. Suprimindo o velho samba amaxixado, este nova forma de samba tinha uma cadência mais sincopada e mais apoiada na percussão. O samba em si tornou-se sincopado, mas no samba-sincopado a síncope (o deslocamento) foi levada às últimas consequências. O compositor Geraldo Pereira foi grande expoente do samba-sincopado. Nei Lopes diz que são sincopadas as composições de Geraldo Pereira -" Bolinha de Papel "," Escurinha "," Escurinho "," Falsa Baiana ".

[17] O grande cronista Francisco Guimarães – mais conhecido pelos leitores do periódico “A Tribuna” como Vagalume – contou uma história muito interessante sobre a origem do samba. Disse ele que esta palavra é a junção de duas outras palavras africanas, “sam” e “ba”. A primeira significaria “pague” e a segunda “receba”. Assim, o samba seria o samba porque na Bahia, ainda no tempo dos escravos, um cativo que havia roubado o próprio pai, decidiu reparar o erro, pagando o que lhe devia diante de sua comunidade africana, a qual, feliz pelo ato, repetia as palavras “sam” e “ba” enquanto dançava.

[18] Enquanto isso, João da Baiana, conta que não só teve seu pandeiro apreendido, como também chegou a ser preso por causa de samba: “Pandeiro era proibido. O samba era proibido e o pandeiro. Então, a polícia perseguia a gente. E eu tocava pandeiro na [Festa da] Penha, na época da [Festa da] Penha. A polícia me tomava o pandeiro. (...) Pois então não fui preso por pandeiro? Diversas vezes. Me tomavam o pandeiro e me prendiam. Eu tenho fotografia em casa, nas revistas, eu dentro do xadrez com o pandeiro.(...) Prendiam para corrigir”. Essa perseguição ao samba foi resultado de todo esse processo histórico que viemos discutindo até aqui e se refletiu diretamente no espaço geográfico da cidade, que foi remodulado pela burguesia, com o objetivo de implementar os ideais de modernização europeia. Tais reformas representaram um alto custo social a ser pago pelos trabalhadores, os quais foram expulsos das áreas centrais entre os anos 1900 e 1930, para dar lugar às grandes avenidas e boulevards inspirados na Belle Époque francesa. Mas os ideais burgueses não paravam por aí. Tinham como objetivo transformar o Rio numa capital “civilizada” como as capitais europeias.

[19] Segundo Sandroni, podemos encontrar personagens que guardam as características semelhantes ao malandro carioca ainda no século XIX, como os capadócios, presentes em alguns romances da época, ou mesmo em outros países latino-americanos, como os milongueiros, argentinos, ou os negros curros, cubanos. Além de uma posição objetiva, a malandragem seria uma construção imaginária pelo qual um grupo se reconhece e é reconhecido socialmente.

[20] A tese intitulada “Em Abençoado e danado do samba”, em 2004, de excelente qualidade de Ricardo José Duff Azevedo apresentada ao Programa de Pós-graduação em Teoria Literária e Literatura Comparada do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e publicada pela EDUSP, reuniu cerca de quinhentas letras de samba, recolhidas de um universo de mais de sete mil músicas, das quais fez uma pré-seleção de 4,8 mil. Em vez de recortar períodos históricos, ele procurou demonstrar recorrências num espectro amplo, o que permitiu outra compreensão da importância do samba. O autor considera um equívoco, por exemplo, o fato de muitos estudos localizarem o “malandro” nas décadas de 1930 e 1940 e falarem de seu desaparecimento. O que pode ter desaparecido, explica, é determinada versão do malandro. “O samba fala de malandragem e adota um ‘tom malandro’ desde o primeiro samba gravado até agora.” Na verdade, o malandro nunca existiu de fato, isso sim, num discurso mais culto, também presente nas letras da música popular brasileira.

[21] Em Salvador os compositores Riachão, Panela, Batatinha, Garrafão e Goiabinha foram seguidos por Tião Motorista, Chocolate, Nélson Balalô, J. Luna, Edil Pacheco, Ederaldo Gentil, Walmir Lima, Roque Ferreira, Walter Queirós, Paulinho Boca de Cantor e Nélson Rufino, que mantiveram a tradição dos sambas-de-roda e samba-coco, quase todos despontados para um maior reconhecimento a partir da década de 1970.

[22] Interessante notar que entre as festas pagãs, o Natal que comemoramos no dia 25 de dezembro sofrera uma cristianizada, comemorando o nascimento de Jesus pela primeira vez no ano 354. Aquela festa pagã chamada de Natalis Solis Invicti (nascimento do sol invencível) era uma homenagem ao deus, persa Mitra, que era popular em Roma. Tais comemorações aconteciam durante o solstício de inverno, o dia mais curto do ano. No hemisfério norte, o solstício não tem data fixa, mas costuma ocorrer próximo ao dia 22 de dezembro, mas pode cair até no dia 25. Teria mesmo Jesus nascido no fim do ano? Especialistas duvidam e os estudiosos do Novo Testamento possuem o entendimento que ele não nascera em 25 de dezembro. Segundo o evangelista Lucas afirma que Jesus nascera na época de um grande recenseamento, que obrigava as pessoas a saírem do campo para irem até às cidades para se alistarem. Acontece, porém, que em dezembro é época de inverno rigoroso na região de Israel, impedindo ou pelo menos dificultando muito o grande deslocamento de pessoas. É provável que tenha nascido entre março e novembro, quando o clima no Oriente Médio é mais ameno.

A Lupercalia ou festas Lupercais era um festival pastorial romano, celebrada a XV Kalendas Martias que corresponde hoje ao dia 15 de fevereiro. O nome da festa supõe-se derivar de lupus que significa lobo. Realizada na gruta de Lupercal, no monte Palatino que era uma das sete colinas de Roma. E, segundo a tradição Pã ou Fauno Luperco (o que protege o lobo) em cuja honra se fazia a festa, tomou a forma de loba e amamentou os gêmeos Rômulo e Remo (indigitados fundadores de Roma). A Lupercália era uma festa de fim de ano. Acreditava-se que essa cerimónia servia para espantar os maus espíritos e para purificar a cidade, assim como para liberar a saúde e a fertilidade às pessoas açoitadas pelos lupercos. A associação com a fertilidade viria de as chicotadas deixarem a carne em cor púrpura. Essa cor representava as prostitutas sacerdotais da Ara Máxima, também chamadas lobas. Tratava-se também de rito de passagem, simbolizando a morte e a ressurreição, celebrando assim a vida. Caracterizadas pela licenciosidade, tinham características adotadas mais tarde nas festas de Carnaval. Em 494 d.C., o Papa Gelásio I proibiu e condenou oficialmente essa festa pagã. Numa tentativa de cristianizá-la, substituiu-a pelo 14 de fevereiro, dia dedicado a São Valentim (hoje, conhecido como o dia dos namorados).

[23] Baco, ou em latim Bacchus é nome adotado pelos romanos, do deus grego Dionísio, cujo mito é considerado ainda mais antigo por alguns estudiosos. Os romanos o adotaram, como muitas de suas divindades, estrangeiras à mitologia romana, e o assimilaram com o velho deus itálico Liber Pater. Algumas lendas mencionam que a cidade de Nysa, na Índia (atual Nagar) teria sido consagrada a ele. É o deus do vinho, da ebriedade, dos excessos, especialmente sexuais, e da natureza. As festas em sua homenagem eram chamadas de bacanais - a percepção contemporânea de que tais eventos eram bacanais o sentido moderno do termo, ou seja, orgias, ainda é motivo de controvérsia.

[24] Leandro Narloch é jornalista, escritor e editor de várias revistas conceituadas, fez um apelo engraçado que os carnavalescos errem!... pois afinal o carnaval é um pequeno momento do ano destinado justamente ao oposto. Nesses quatro dias, você está liberado para errar, para não ser aceito e se esforçar em tirar zero. Vide em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1202201009.htm .

[25] Rei Momo é personagem da mitologia grega que se tornou um símbolo do Carnaval. Em 1910 o palhaço negro Benjamim Oliveira personificou o Rei Momo, pela primeira vez no Rio de Janeiro, numa atuação do Circo Spineli. A figura atual do Rei Momo carioca terá surgido em 1933 quando Edgard Pilar Drumond, também conhecido por Plamenta, cronista carnavalesco, juntamente com o jornalista Vasco Lima e outros jornalistas do jornal “A Noite”, criaram um boneco de papelão a que chamaram Rei Momo I e o único, esculpido pelo artista Hipólito Colomb. Em 1934, o jornal decidiu passar o rei para carne e osso, sendo consenso que devia ser alguém alegre, bonacheirão, bem falante e com cara de glutão, uma visão peculiar do Rei Momo e diversa da de carnavais como o de Nice, Nova Orleans e Colônia. O eleito foi Moraes Cardoso, cronista de turfe na redação do mesmo jornal, que prontamente concordou. Pedida a opinião ao maestro Sílvio Piergilli do Teatro Municipal sobre a indumentária do futuro rei, este, ao saber o físico do escolhido, não teve dúvidas em entregar a vestimenta do Duque de Mântua, personagem da ópera de Verdi, Rigoletto. E assim, entre os gritos de saudação de" Vive le Roy! "e" Evoé Momo! "de repórteres, linotipistas, contínuos e faxineiros, comandados por Pilar Drumond, nascia para o Rio de Janeiro o primeiro Rei Momo genuinamente carioca. Não é claro se os dois Reis Momos - o de papelão e o de carne e osso - chegaram a coexistir no mesmo Carnaval. Moraes Cardoso foi coroado como rei do Carnaval por quase 15 anos, de 1934 a 1948. Até ao seu falecimento, participou dos desfiles carnavalescos onde era ovacionado com muitas serpentinas e confetes, além de sempre ser cumprimentado com um" Vive le Roi! "(Viva o Rei, em francês), tanto pelos amigos de redação quando pelos foliões. A partir daí, a escolha do rei do Carnaval foi feita por entidades carnavalescas e jornalísticas, uma vez que a presença do rei havia virado tradição entre os foliões. Uma lei estadual de 1968 oficializou a eleição.

[26] O hábito de se brincar no período do carnaval foi trazido para o Brasil pelos portugueses, provavelmente no século XVI, com o nome de entrudo. Já na Idade Média, costumava-se comemorar o carnaval em Portugal com uma série de brincadeiras que variavam de aldeia para aldeia. Onde se notava a presença de grandes bonecos, chamados genericamente de entrudos. Portanto o entrudo engloba uma variedade de brincadeiras dispersas no tempo e no espaço. Aquilo que a maioria das obras descreve como entrudo é a forma que essas brincadeiras adquiriram a partir do final do século XVIII no Rio de Janeiro. No início do século XIX conforme explica o pesquisador Felipe Ferreira em" O livro de ouro do carnaval brasileiro "há duas grandes categorias de entrudo: o familiar e o popular.

[27] “Era no tempo em que ao carnaval se chamava entrudo, o tempo em que em vez das máscaras brilhavam os limões de cheiro, as caçarolas d’água, os banhos, e várias graças que foram substituídas por outras, não sei se melhores se piores”. In: ASSIS, Machado. Um dia de entrudo.

[28] A intensificação da repressão policial às práticas típicas do entrudo e o surgimento das sociedades carnavalescas pareceram a inauguração desse tempo civilizado. E, com isso há o discurso civilizador que correspondia a uma camuflagem da moda para o racismo que permeava as relações sociais no Brasil.

[29] Ainda sobre o tema da proibição recentemente, a Lei 02/2013 aprovada pela Câmara Municipal de São Paulo (que complementa a Lei 15.777/2013 que proíbe a emissão de ruídos sonoros de aparelhos de som instalados em veículos automotores estacionados) que proíbe a utilização de vias públicas para a realização de bailes funk e qualquer outro evento musical não autorizado pela Prefeitura... A Lei municipal 3.410/2000 do Rio de Janeiro dispõe sobre a realização de bailes tipo funk no município e institui expressamente em seu art. 6º que:"ficam proibidos a execução de músicas e procedimentos de apologia ao crime nos locais em que se realizam eventos sociais e esportivos de quaisquer naturezas.". Já a Lei 5.543/2009 definiu o funk como movimento cultural e musical de caráter popular mas mantém a proibição os conteúdos que façam apologia ao crime. A lei expõe que compete ao poder público assegurar ao movimento a realização de suas manifestações próprias, como festas, bailes, reuniões, sem quaisquer regras discriminatórias e nem diferentes das que regem outras manifestações da mesma natureza. A lei proíbe, ainda, qualquer tipo de discriminação ou preconceito, seja de natureza social, racial, cultural ou administrativa contra o movimento funk ou seus integrantes. Estabelece ainda que os artistas do funk são agentes da cultura popular e, portanto, devem ter seus direitos relacionados. A Lei 5.544 revogou a Lei 5.265/2008 que regulamentava tais eventos, restringindo suas realizações.

[30] Na época, a ópera era a maior expressão de arte europeia e impôs-se no Brasil como misto de entretenimento e música. Reflexo da sociedade burguesa, o teatro passou a ser a expressão do moderno, culto e civilizado. A escolha inicial do protótipo do carnaval, que deveria substituir o entrudo, não poderia gravitar em outra órbita de influência senão naquela representada pelos teatros, óperas e salões. Dentre vários carnavais que tinham curso na Europa, privilegiou-se, numa primeira fase, aquele que se passava entre o brilho dos teatros e salões: o carnaval de Veneza e de Paris.

[31] Os" entrudos "eram os bonecos gigantes feitos de madeira e tecido, que faziam parte destas brincadeiras carnavalescas portuguesas no período final da Idade Média (por volta do século XV).

[32] Benito Almicare Andrea Mussolini (1883-1945) foi um político italiano que liderou o Partido Nacional Fascista e é quem se credita ser uma das mais significativas figuras do fascismo. Tornou-se o Primeiro-Ministro da Itália em 1922 e começou a utilizar o título de Il Duce desde 1935. Após 1936, seu título oficial era" Sua Excelência Benito Mussolini, Chefe de Governo, Duce do Fascismo e Fundador do Império ".

[33] Getúlio Dornelles Vargas (1882-1954) foi advogado, político brasileiro e líder civil da Revolução de 1930, que pôs fim à República Velha depondo o décimo-terceiro e último presidente Washington Luís e impedindo a posse do presidente eleito em 01 de março de 1930, Júlio Prestes. Foi presidente brasileiro em dois períodos. O primeiro período que durou quinze anos ininterruptos (de 1930 até 1945) e, que se dividiu em três fases: de 1930-1934, como chefe do Governo Provisório, de 1934 até 1937 como presidente da república do Governo constitucional, tendo sido eleito presidente pela Assembleia Nacional Constituinte de 1934; e novamente de 1937 a 1945, como presidente-ditador, enquanto durou o Estado Novo implantado após o golpe de estado. No segundo período em que fora eleito por voto direito, governou o Brasil por três anos e meio: de 31 de janeiro de 1951 até 24 de agosto de 1954 quando se suicidou. Deixou como herança política pelo menos em dois partidos políticos atuais: o Partido Democrático Trabalhista (PDT) e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).

[34] Muitos historiadores apontam semelhanças havidas entre as ditaduras de Getúlio Vargas, Hitler e Mussolini. A própria terminologia de “Estado Novo” foi tirada de outra ditadura europeia da época, instituída por Salazar em Portugal, país que se manteve oficialmente neutro durante a Segunda Guerra Mundial. É notório o fato que entre os participantes do governo Vargas havia simpatizantes do Eixo, entre estes, havia Filinto Müller, chefe de polícia do Distrito Federal, e responsável pela deportação de Olga Benário, mulher do líder comunista brasileiro Luís Carlos Prestes, para Alemanha nazista. Em 1940, num discurso proferido a bordo do encouraçado “Minas Gerais”, Vargas elogiou o nacionalismo das nações fortes fazendo referência indireta às ditaduras direitistas da época. Se havia alguma incoerência no fato de a ditadura de Vargas entrar na guerra ao lado das democracias, haveria mais incoerência ainda numa aliança entre o Brasil e a Alemanha. Mas seria um absurdo um país multiétnico, de população miscigenada, aliando-se a uma ditadura que pregava a superioridade da raça ariana e a escravização e o extermínio das raças consideradas" inferiores ".

[35] São sociedades sem fins lucrativos e, portanto isentas do IR, são disciplinadas pelos artigos 51 a 63 na Lei 10.406/2002, o Código Civil Brasileiro.

[36] Stuart Hall entende que o povo negro articulou a música como estratégia, como resposta ao mundo que referenda apenas a escrita como maneira legítima de preservação e disseminação cultural. O samba seria um dos meios para fundar o capital cultural capaz de disseminar e dar sobrevida a história do povo negro e suas imigrações.

[37] O engraçado é que no Brasil diversamente do que ocorre com outros países da América Latina, tal como Argentina e Chile, o termo folclore raramente esteve associado à canção popular veiculada pelos meios de comunicação. Mas tal conceito de folclorização sofreu nova interpretação em função das transformações sociais, econômicas, políticas e culturais marcadas no país particularmente ao final da Segunda Grande Guerra Mundial. No campo da música, o progresso brasileiro era representado pelos meios de comunicação de massa que disseminavam as novidades que chegavam do exterior, e colaboravam para a desintegração do patrimônio nacional. A folclorização do popular, ou seja, sua transformação em tradição foi a hábil estratégia encontrada para reagir às transformações impostas pelo presente. Enfim, folclore é ciência que trata de tudo que é ou se tornou tradicional (transmitido de geração em geração, oralmente ou não), funcional (de cerimônia ou festividade coletiva), e típico (próprio ou característico de um povo). Esta valorização do carnaval como festa popular coletiva, como manifestação folclórica, estava nas páginas da RMP. De janeiro de 1955, é o primeiro artigo sobre o tema que fora assinado por Claudio Murilo, o texto se preocupava em historicizar a origem da Escola de Samba Portela, desde 1922. Em fevereiro deste mesmo ano, Mariza Lira publicou um artigo sobre as origens do carnaval no Brasil. Jota Efegê, também escreve sobre o carnaval carioca, na edição de setembro de 1955, a partir da Festa da Penha, que constitui, em sua opinião, um prelúdio do carnaval carioca. Da edição de abril de 1956, já que entre janeiro e março a revista não circulou, data o outro artigo de Claudio Murilo, sobre a história da Mangueira. Em comum tais textos tratam o carnaval como uma festa popular, como uma manifestação espontânea, coletiva, com caráter funcional, portanto tipicamente folclórica. E ainda mais, relacionam o carnaval à música popular urbana.

[38] Em depoimento de Donga dado para Hermínio Belo de Carvalho e registrado por Sérgio Cabral in litteris: (...)"O fulano da polícia pegava o outro tocando violão, este sujeito estava perdido. Perdido! Pior que comunista, muito pior. Isso que eu estou lhe contando é verdade. Não era brincadeira, não. O castigo era seríssimo. O delegado te botava lá umas 24 horas". (...).

[39]Lundu ou lundum é gênero musical e uma dança brasileira de natureza híbrida, criada a partir dos batuques dos escravos bantos trazidos ao Brasil, vindos de Angola e de ritmos portugueses. O lundu africano herdou sua base rítmica com forte dose de malemolência e seu aspecto lascivo, evidenciado pela umbigada, rebolados e outros gestos que simulam o ato sexual. Da Europa, o lundu, que é considerado por muitos o primeiro ritmo afro-brasileiro, aproveitou características de danças ibéricas, como o estalar dos dedos, e a melodia e harmonia, além do acompanhamento feito pelo bandolim. Aparece o lundu no século XVIII como uma dança sem cantoria e de natureza licenciosa para os padrões da época. Foi presente tanto no Brasil como em Portugal, e evoluiu como forma de canção urbana, desta vez acompanhada de versos, na maior parte das vezes de cunho humorístico e lascivo, tornando-se uma popular dança de salão. Durante o século XIX representou o primeiro ritmo africano a ser aceito pelos brancos. Uma modalidade de lundu é a dança de roda ainda praticada na Ilha de Marajó e nos arredores de Belém no estado do Pará. Xisto de Paula Bahia (1841-1894) foi um ator, cantor e compositor brasileiro. “Foi também o primeiro cantor que gravou uma música no Brasil o lundu chamado: “ Isto é bom” lançada pela Casa Edison utilizando o selo Zonophone. É considerado o marco inicial das gravações fonográficas no Brasil pela maioria dos pesquisadores da história da música popular brasileira.

[40] Os antecessores dos cabarés haviam sido os vaudevilles e os boulevards, antes da Primeira Grande Guerra Mundial. Após Segunda Guerra os cabarés voltam a florescer e a determinar toda uma cultura, alguns em forma de Casas de Café, como o famoso Café Flore por onde Sartre e Simone Beauvoir perambulavam. Na França, a palavra cabaré refere-se inicialmente a toda casa comercial que servia bebida a base de álcool. No entanto, o cabaré conforme conhecemos hoje, apareceu em 1881 com a abertura do Le Chat Noir (O gato preto) no distrito de Monmartre de Paris. Era um espaço informal onde passavam artistas e gente do povo. E, outros cabarés, se disseminaram por toda Paris, e em 1900 estabelecimentos similares também apareceram em diversas cidades francesas e alemãs. Mas, foi o final do século XIX que fora transformado em lugares especiais para as apresentações de espetáculos que envolviam, principalmente, a dança e a música, mas aí, também, tinha espaço para o show de variedades.

[41] Alfredo da Rocha Viana Filho, conhecido como Pixinguinha (1897-1973) foi um flautista, saxofonista, compositor e arranjador brasileiro. É considerado um dos maiores compositores da música popular brasileira, contribuiu diretamente para que o choro encontrasse uma forma musical definitiva. Integrou o famoso grupo Caxangá, com Donga e João Pernambuco. E, a partir deste grupo formou o conjunto chamado “Oito Batutas” muito ativo a partir de 1919. Na década de 1930 fora contratado como arranjador pela gravadora RCA Victor, criando célebres arranjos na voz de cantores como Francisco Alves ou Mário Reis. No final da década de 1930, foi substituído na função por Radamés Gnatali. E, na década de 1940 integrou o grupo regional de Benedito Lacerda, passando a tocar o saxofone tenor. No dia 23 de abril é comemorado o Dia Nacional do Choro, trata-se de uma homenagem ao nascimento de Pixinguinha. Foi conhecido popularmente como um" negão filho de Ogum bexiguento e fadista de profissão "retratado por Mário de Andrade e sua obra" Macunaíma, o herói sem nenhum caráter ".

[42] Ernesto Joaquim Maria dos Santos, conhecido como “Donga” (1890-1974) foi músico, compositor e violinista brasileiro. Organizou com Pixinguinha a Orquestra Típica Donga-Pixinguinha. Em 1919, ao lado de Pixinguinha e outros seis músicos, integrou, como violonista, o grupo Oito Batutas, que excursionou pela Europa em 1922. Em 1926 integrou a banda Carlito Jazz. Em 1940 Donga gravou nove composições (entre sambas, toadas, macumbas e lundus) do disco Native Brazilian Music, organizado por dois maestros: o norte-americano Leopold Stokowski e o brasileiro Villa-Lobos, lançado nos Estados Unidos pela Columbia. No final dos anos 50 voltou a se apresentar com o grupo chamado “Velha Guarda”, em shows organizados por Almirante.. Em 1917 consagrou a gravação de “Pelo Telefone”, considerado o primeiro samba gravado na história.

[43] Um dos maiores méritos de Tia Ciata foi saber cultivar boas relações com gente de prestígio e dinheiro. Graças a esse talento diplomático e sua habilidade com as ervas medicinais, o marido dela conseguiu empregar-se no gabinete do chefe de polícia. Para tanto ela teve como intermediário o presidente Venceslau Brás, que assim a recompensou pela cura de uma ferida na perna que os médicos diziam não ter mais meios para tratar. A proteção e ajuda de pessoas influentes na sociedade faziam parte das estratégias dos adeptos do candomblé para se livrarem da polícia.

[44] Religião derivada do animismo africano, onde se cultuam orixás, voduns ou nkisis, dependendo da nação. De origem totêmica e familiar é uma das religiões de matriz africana mais praticadas, principalmente no Brasil. A religião tem por base a anima (alma) da natureza, e por essa razão sendo chamada de anímica. Os sacerdotes africanos que vieram para o Brasil na condição de escravos, juntamente com seus orixás, sua cultura, e seus dialetos, entre 1549 até 1888. O candomblé não deve ser confundido com Umbanda, Macumba, e/ou Omoloko, e outras religiões afro-brasileiras com similar origem; e com religiões afro-americanas similares em outros países do Novo Mundo, como o Vodou haitiano, a Santeria cubana, e o Obeah, em Trinidade e Tobago, os Shangos (similar ao Tchamba africano, Xambá e ao Xangô do Nordeste do Brasil) o Ourisha, de origem yorubá, os quais foram desenvolvidos independentemente do candomblé e são virtualmente desconhecidos no Brasil.

[45] A polca é dança popular da República Tcheca, da região da Boêmia. No século XIX, esta região fazia parte do antigo Império Austro-Húngaro. Fora introduzida nos salões europeus da era pós-napoleônica com atrativo da aproximação física dos dançarinos, ao prever duas possibilidades de evolução do par enlaçado. Foi revivida após a década de 1930 através de composições eventuais sob as formas de polca-choro, polca-maxixe, polca-baião e até numa curiosa experiência de polca-canção.

[46] O apelido Pixinguinha vem de pizidim (menino bom em dialeto africano falado por sua avó) e “bexiguinha” apelido que ganhou na época por ter contraído varíola.

[47] Que significa de má aparência e muito magra.

[48] Batuta era gíria de 1958 que significava exímio.

[49] Na época, a turnê na Europa provocou no país um acalorado debate sobre a legitimidade de “Oito Batutas” em sua maioria negros, que faziam uma música considerada nacional brasileira como representantes brasileiros em Paris. Para os envolvidos no debate, Paris não se tratava de uma cidade qualquer, mas a capital cultural do mundo, desde o século XIX referência central para a cultura brasileira, especialmente para as elites. No debate em consideração, os argumentos dos" contra "tinham um cunho racista e eurocêntrico, desqualificando a música nacional como provinciana e de baixa extração.

[50] Le Shéhérazade localizava-se em Faubourg Montmartre, n. 16, 9º distrito. O grupo tocou também em festas e em outras casas noturnas, como em Le Duque (rua Caumartin, n. 17, 9º distrito). Sobre a história da noite parisiense, ver Richard (1991), Chevalier (1982), Sallée et Chauveau (1985) e Miomandre (1932).

[51] Acredita-se que a origem da palavra" jazz "tenha sido criada em Chicago, em 1914, muito tempo depois de aparecimento da música a que serviu de nome. Alguns apontam que é uma corruptela de um termo obsceno da era elisabetana" jass "para outros, um abastardamento do nome Charles, contraído em" Chas "ou" Jas "tendo sido Charles, provavelmente algum músico popular negro.

[52] José Barbosa da Silva era mais popularmente conhecido como “Sinhô” (1888-1930) foi compositor brasileiro considerado muito talentoso, e para muitos, o maior músico da primeira fase do samba carioca. Durante o ano de 1928, ministrou aulas de violão a Mário Reis, que se tornaria o seu intérprete preferido e que lançaria dois dos seus maiores sucessos: “Jura” e “Gosto Que Me Enrosco”. Compôs o último samba, “O Homem da Injeção”, em julho de 1930, um mês antes de sua morte, no entanto a letra e a melodia deste samba desapareceram misteriosamente, não chegando ao conhecimento do público. Em 1952, sob a direçao de Lulu de Barros, a atriz Carmen Santos produziu o filme “O Rei do Samba sobre a trajetória de vida de Sinhô.

[53] Vide: GARDEL, André. O Encontro Entre Bandeira e Sinhô. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1996.

[54] Por identidade nacional entende-se o somatório de valores culturais resultante da vivência, que, apesar de incluir as discrepâncias ou heterogeneidades regionais e peculiaridades grupais e que, seja caracterizáveis por um traço comum que permita a definição de perfil multidimensional hegemônico baseado em fator humano, território, instituições, língua, costumes, religiões e história. Para haver identidade nacional é preciso que o povo possua consciência de nação representada pelo dever do governo de defender o trabalho, o capital e o conhecimento e cultura nacionais. A autoestima une tais dois conceitos, gerando fenômeno cultural variável no tempo, dependendo do êxito da nação em transformar em realidade os objetivos do desenvolvimento. A nação é uma construção coletiva a partir de uma identidade nacional. Portanto, a identidade cultural é um projeto inacabado em constante evolução.

[55] A expressão “complexo de vira-lata" nesse sentido foi criada pelo dramaturgo escrito brasileiro Nelson Rodrigues, a qual originalmente se referia ao trauma sofrido pelos brasileiros em 1950, quando a Seleção Brasileira fora derrotada pela Seleção do Uruguai de Futebol, na final da Copa do Mundo em pleno Maracanã. O Brasil só teria se recuperado do choque (pelo menos no campo do futebol) em 1950, o Brasil finalmente ganhou a Copa do Mundo pela primeira vez. Porém, para Rodrigues o fenômeno não se limitava apenas ao futebol. Segundo ele, “por complexo de vira-lata entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do mundo."A expressão traduzida para mongrel complex foi recuperada em 2004, pelo jornalista norte-americano Larry Rohter que em matéria para o jornal New York Times sobre o programa nuclear brasileiro. Assim, o Brasil ansioso em ser reconhecido como igual perante as demais as nações, tropeçaria solenemente e, sucessivamente em sua baixa-estima, reforçada por incidentes folclóricos acima relatados, e outros do mesmo gênero como por gafes repetidas pela mídia e autoridades estrangeiras.

[56] Quando a República foi proclamada a capoeira passou a ser contravenção prevista no Código Penal de 1890, com pena de dois a seis meses de prisão. Muitos praticantes acusados de outros crimes, como vagabundagem e roubo, tiveram como destino a colônia correcional da Paraíba, a ilha de Fernando de Noronha ou o Acre para que fossem corrigidos pelo trabalho. A ordem do presidente Deodoro da Fonseca era que a capoeiragem fosse extinta do território nacional para o bem dos cidadãos e da segurança do Estado. A atenção especial da legislação penal republicana, por certo, estava relacionada à participação política de capoeiras nos episódios que antecederam a proclamação da república em 1889.

[57] Thomas E. Skidmore, em “O preto no branco” (1989), mostra que vários cientistas estrangeiros, como Buckle, Gobineau e Louis Agassiz, difundiam o determinismo, climático ou racial, usando a visível miscigenação da população brasileira para comprovar suas teorias, apontando nossa realidade como prova dos males ocasionados pela mistura racial. Alguns chegaram a afirmar explicitamente que a população brasileira estava condenada ao fracasso e até ao desaparecimento.

[58] Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906) foi médico legista, psiquiatria, professor e antropólogo brasileiro. Em sua segunda incursão na classificação racial da população, dessa vez a nível nacional, num artigo publicado na Gazeta e no Brazil Médico, do Rio de Janeiro, em 1890, aparece pela primeira vez a rubrica antropologia –" anthropologia patológica ". Nina Rodrigues defendeu ideias que hoje podem ser qualificadas como racistas, mas, à época, consideradas científicas e modernas. Ele foi fortemente influenciado pelas ideias do criminólogo italiano Cesare Lombroso. No ano da abolição da escravatura, escreveu:" A igualdade é falsa, a igualdade só existe nas mãos dos juristas ". Em 1894, publicou um ensaio no qual defendeu a tese de que deveriam existir códigos penais diferentes para raças diferentes. Nina Rodrigues foi um dos introdutores da antropologia criminal, da antropometria e da frenologia no país. Em 1899 publicou" Mestiçagem, Degenerescência e Crime ", procurando provar suas teses sobre a degenerescência e tendências ao crime dos negros e mestiços. Os demais títulos publicados também não deixam dúvidas sobre seus objetivos:"Antropologia patológica: os mestiços","Degenerescência física e mental entre os mestiços nas terras quentes". Para ele o negro e os mestiços se constituíam na causa da inferioridade do Brasil. Na sua grande obra, “Os Africanos no Brasil”, escreveu:"Para dar-lhe (a escravidão) esta feição impressionante foi necessário ou conveniente emprestar ao negro a organização psíquica dos povos brancos mais cultos (…). O sentimento nobilíssimo de simpatia e piedade ampliados nas proporções duma avalanche enorme na sugestão coletiva de todo um povo, ao negro havia conferido (…) qualidades, sentimentos, dotes morais ou ideias que ele não tinha e que não podia ter; e naquela emergência não havia que apelar de tal sentença, pois a exaltação sentimental não dava tempo nem calma para reflexões e raciocínios".

[59] A obra fora publicada em 01 de dezembro de 1933. Através dele, o autor destacou a importância da Casa Grande na formação sociocultural brasileira, bem como a Senzala que complementaria a primeira. Além disso, na obra deu ênfase grande a questão da formação da sociedade brasileira, tendo em vista a miscigenação que ocorreu principalmente entre brancos, negros e indígenas. Observou o autor que a própria arquitetura da casa grande já expressaria o modo de organização social e política que se instaurou no Brasil, qual seja o do patriarcalismo. Isto posto que tal estrutura fosse capaz de incorporar os vários elementos que comporiam a propriedade fundiária do Brasil Colônia. Do mesmo modo que o patriarca da terra era considerado como dono de tudo que nela se encontrasse como escravos, parentes, filhos e esposa. Este domínio se estabeleceu de maneira a incorporar tais elementos e não excluí-los. Tal padrão se expressa na casa grande que é capaz de abrigar desde escravos até os filhos do patriarca e suas respectivas famílias. Nessa obra o autor igualmente tentou desmistificar a noção de determinação racial do povo no que dá maior importância àqueles elementos culturais e ambientais. Com isso vem a refutar a ideia de que no Brasil se teria uma raça inferior em face da miscigenação que aqui se instaurou. Antes, apontou como elementos positivos que perpassaram a formação cultural brasileira composta essencialmente por tal miscigenação.

[60] A palavra moral advém do latim mores que significa relativo aos costumes. E, se originou a partir do intento dos romanos de traduzirem a palavra grega êthica. A verdade que é a palavra" moral "não traduz por completo a palavra grega em questão. Segundo José Ferrater Mora, os termos 'ética' e 'moral' são usados, por vezes, indistintamente. Contudo, o termo moral tem usualmente uma significação mais ampla que o vocábulo 'ética'. A moral é aquilo que se submete a um valor. Já a moralidade é o cultivo sereno e constante dos valores humanos, que deriva da própria consciência humana, que deveria impor-se em todos os campos da vida humana, na família, nas escolas, no trabalho e, também, tanto no campo político quanto no econômico. É a nossa consciência moral em ação que condena os desvios e os excessos, inclusive nas operações financeiras e políticas.

[61] Gilberto de Mello Freyre (1900-1987) foi um polímata (aquele que aprendeu muito). Como escritor dedicou-se aos ensaios da interpretação do Brasil sob os ângulos da sociologia, antropologia e história. Foi também jornalista, autor de ficção, poeta e pintor. É considerado um dos mais importantes sociólogos do século XX. Recebeu da Rainha Elizabeth II, o título de Sir, sendo um dos raros brasileiros detentores desta alta honraria da coroa britânica. Seu primeiro e mais conhecido livro é Casa-Grande & Senzala, publicado no ano de 1933 e escrito em Portugal. Nele, Freyre rechaça as doutrinas racistas de branqueamento do Brasil. Baseado em Franz Boas, demonstrou que o determinismo racial ou climático não influenciou no desenvolvimento de um país. Entretanto, essa obra deu origem ao mito da democracia racial no Brasil, com relações harmônicas inter-étnicas que mitigariam a escravidão brasileira, que, segundo Freyre, fora melhor do que a norte-americana.

[62] O pensamento de Rousseau pode ser tomado como uma doutrina individualista ou uma denúncia da falência da civilização, mas não é bem isso. O mito criado pelo filósofo em torno da figura do bom selvagem - o ser humano em seu estado natural, não contaminado por constrangimentos sociais - deve ser entendido como uma idealização teórica. Além disso, a obra de Rousseau não pretende negar os ganhos da civilização, mas sugerir caminhos para reconduzir a espécie humana à felicidade.

[63] José Martiniano de Alencar (1829-1877) foi jornalista, político, advogado, orador, crítico, cronista, romancista e dramaturgo brasileiro. Foi casado com Ana Cochrane. Era filho do senador José Martiniano Pereira de Alencar, irmão do diplomata Leonel Martiniano de Alencar, barão de Alencar, e pai de Augusto Cochrane de Alencar. Produziu também romances urbanos (“Senhora”, 1875; “Encarnação”, escrito em 1877, ano de sua morte e divulgado em 1893), regionalistas (“O Gaúcho”, 1870; “O Sertanejo”, 1875) e históricos (“Guerra dos Mascates”, 1873), além de peças para o teatro. Uma característica marcante de sua obra é o nacionalismo, tanto nos temas quanto nas inovações no uso da língua portuguesa. Em um momento de consolidação da Independência, Alencar representou um dos mais sinceros esforços patrióticos em povoar o Brasil com conhecimento e cultura próprios, em construir novos caminhos para a literatura no país.

[64] A figura do caboclo é ainda hoje o núcleo de cortejo cívico no dia 2 de julho, e tal data teria surgido como símbolo de lutas de 1822-23, desde o momento em que as tropas brasileiras após vencerem os portugueses na batalha de Pirajá, adentraram em Salvador. Nessa data também se comemora a independência da Bahia e nas religiões afro-brasileiras os caboclos são reverenciados como seres encantados, afinal, já estavam no Brasil e eram os donos da terra, quando os africanos aqui chegaram trazendo consigo os seus orixás. O Jeca Tatu é personagem criado por Monteiro Lobato em sua obra Urupês que contém quatorze histórias baseadas no trabalhador rural paulista. Simboliza a situação do caboclo brasileiro, abandonado pelos poderes públicos às doenças, seu atraso e à indigência. Dizia Monteiro Lobato:" Jeca Tatu não é assim, ele está assim ". Qualquer semelhança não é acaso.

[65] A palavra “ário” advém do sânscrito arya e significa nobre e, modernamente é associado ao grupo proto-indo-europeu. O uso do arianismo contou com o forte apoio de Arthur Gobineau, e, mesmo depois encontrou muitos adeptos como Geiger e Poesche (que fora responsável pela atribuição das características nórdicas aos arianos) em 1878. Entre 1883 a 1891 foi Karl Penka que popularizou a imagem clássica do ariano como louro, alto, com olhos azuis e crânio alongado (e o mais engraçado é que Hitler era baixinho, cabelos negros, olhos castanhos e de crânio pequeno).

[66] Tratado de Versalhes foi um tratado de paz que determinou os termos da paz europeia pondo fim oficialmente a Primeira Grande Guerra Mundial. Fora tão severo que causou choque e imensa desilusão na Alemanha. A população em geral descrevia como humilhação e desonra a aceitação por parte de seu próprio governo de tão severas e opressivas condições, sem ao menos um maior esforço em conduzir negociações de paz mais detalhadas ou planejadas. É consenso entre a maioria dos historiadores que, nas exigências exacerbadas desse tratado onde já podemos encontrar as sementes da Segunda Guerra Mundial, pois, uma nação humilhada e aparentemente sem rumo como a Alemanha foi claramente presa fácil de uma doutrina heterodoxa, autoritária e delirante como a do nazi-fascismo.

[67] O conceito de raça que obedece a diversos parâmetros para classificar diferentes populações de uma mesma espécie biológica de acordo com suas características genéticas ou fenotípicas. A antropologia entre os séculos XVII e XX usou igualmente várias classificações de grupos humanos no que é conhecido como"raças humanas”, mas que desde que utilizaram os métodos genéticos para estudar as populações humanas, essas classificações e o próprio conceito de raças humanas deixaram de ser utilizado, somente ocorrendo o uso do termo no sentido de se requerer a igualdade racial ou na legislação que cogita sobre preconceito de raça, tal como a Lei 12.288 de 20 de julho de 2010, que instituiu no Brasil, o Estatuto da Igualdade Racial. Um conceito alternativo para raça seria o de etnia. Uma pesquisa do IBGE divulgada em 2011 revelou que a maioria dos brasileiros acredita que a cor e a raça do indivíduo influenciam o trabalho e a vida cotidiana das pessoas.

[68] José Ferraz de Almeida Júnior (1850-1899) foi pintor e desenhista brasileiro da segunda metade do século XIX. É frequentemente apontado pela historiografia como precursor da abordagem de temática regionalista, introduzindo assuntos até então inéditos na produção acadêmica brasileira, dando amplo destaque aos personagens simples e anônimos e a fidedignidade com que retratou a cultura caipira, suprimindo a monumentalidade em voga no ensino artístico oficial em favor de um naturalismo. Sua biografia até hoje é objeto de estudo, havendo especial interesse sobre as circunstâncias que acarretaram o seu assassinato, pois fora apunhalado num crime passional.

[69] O geógrafo Aroldo de Azevedo classificou as "raças" no Brasil como sendo: 1-preto, depois chamado negro, e atualmente afro-brasileiro, o escravo, dividido em várias raças: banto, banguela, congo e mina; 2 - branco, o europeu imigrado para o Brasil; 3- negro da terra, o índio, dividido em várias nações; 4- mulato, oriundo do cruzamento do branco com o negro; 5- caboclo, oriundo do cruzamento do branco com o índio; 6-cafuz ou cafuzo, oriundo do cruzamento do índio com o negro; 7-. cabra: oriundo do cruzamento do mulato com o negro.

[70] A escolha da anta como animal símbolo do movimento verde-amarelo ou da Escola da Anta resultou num nacionalismo ufanista e deveu-se ao fato da anta ser um animal com função mítica na cultura tupi. Seu totem não é carnívoro: Anta. É este um animal que abre caminhos, e aí parece estar indicada a predestinação da gente tupi.

[71] A mestiçagem que vem a significar a malandragem no início do século XIX se converte em ícone nacional a figura preguiçosa de Macunaíma, escrita por Mário de Andrade, ou então na personagem de Zé Carioca, figura criada por Walt Disney em 1942 para o filme "Alô amigos" que contou sobre introdução de Pato Donald nas terras brasileiras, bebendo cachaça, dançando samba. Foi tão grande o sucesso do simpático papagaio brasileiro que três anos depois a mesma personagem voltaria às telas, mas desta vez, como estrela principal do exótico desenho "Você já foi à Bahia?" que apresentava aos americanos as belezas dessa terra alegra de Carmen Miranda (a propósito, ela era portuguesa, mas se referiam ao Brasil). Com efeito, era o próprio olhar de fora que reconhecia nesse "malandro simpático" uma espécie de síntese local ou pelo menos uma boa imagem a ser exportada.

[72] A relação existente entre a elite brasileira e os músicos populares não é fenômeno recente, e despertou também interesse da classe média pelo samba e pelo carnaval. Mesmo às vésperas da Independência o povo brasileiro já ia delineando-se musicalmente, e certas formas e constâncias brasileiras já se tornavam tradicionais como o lundu, a modinha e a sincopação. É o que defendeu Mário Vianna em seu livro "O mistério do samba" onde reafirma que a relação entre os segmentos da elite brasileira e os músicos é uma prática comum desde o século XVIII.

[73] “Em novembro de 1928, Cruz Cordeiro publicou uma das suas mais famosas críticas, a que acusou Pixinguinha e Donga de americanizados. Depois de comentar três discos feitos pela Orquestra Pixinguinha-Donga (recomendando-os aos leitores), escreveu”: “O quarto disco contém dois choros: um de Pixinguinha, “Lamentos”, outro de Donga, “Amigo do povo”, sobre os quais não podemos deixar de notar que em suas músicas não se encontra um caráter perfeitamente típico. A influência das melodias e mesmo do ritmo das músicas norte-americanas é, nesses dois choros, bem evidente. Este fato nos causou sérias surpresas porquanto sabemos que os compositores são dois dos melhores autores da música típica nacional. É por esse motivo que julgamos esse disco o pior dos quatro que a Orquestra Pixinguinha-Donga ofereceu nesta quinzena”.

[74] O foxtrote ou foxtrot ou fox-trot em inglês, é uma dança de salão de origem norte-americana, surgida por volta de 1912. Ela é caracterizada por movimentos longos e contínuos, cuja direção segue o sentido anti-horário, em andamento suave e progressivo. Fora dançada pela música executada pelas grandes bandas de jazz as chamadas big bands (em geral com acompanhamento vocal) com a sensação de elegância e sofisticação. Visualmente a dança muito se parece com a valsa, embora o ritmo seja quaternário (ao invés do ritmo ternário da valsa). Foi desenvolvido logo após a Primeira Guerra Mundial, e atingiu o auge da popularidade na década de 1930 e continua ser praticada mesmo até hoje. Etimologicamente a palavra há uma hipótese que afirma ser o nome foxtrot literalmente significa trotar da raposa, fazendo alusão a danças primitivas de origem africana, praticadas por afro-americanos, cuja coreografia imitava passos de animais e teria inspirado o estilo de dança original do foxtrot. Outra hipótese de origem vincula o nome da dança ao seu primeiro divulgador, o ato de vaudeville Harry Fox. Com o tempo, o foxtrote dividiu-se em versões de passo lento e de passo rápido, conhecidas respectivamente como "slow fox" e "quickstep". O "quickstep" é uma versão do foxtrote criada por dançarinos ingleses e que recebeu influências tanto do charleston quanto do ragtime – do qual herdou o ritmo de dança sincopada.

[75] Mário Raul de Morais Andrade (1893-1945) foi poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, folclorista e ensaísta brasileiro. Praticamente criou a poesia moderna brasileira com publicação de seu livro Paulicéia Desvairada em 1922. Depois de ser professor de música e colunista de jornal veio a publicar seu maior romance, Macunaíma, em 1928. Mário de Andrade também foi um dos mentores e fundadores do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, junto com o advogado Rodrigo Melo Franc.

[76] A famosa Turma do Estácio era grupo de sambistas frequentador de rodas de samba particularmente no final da década de 1920, no Rio de Janeiro, é considerado como berço do samba carioca por excelência. O samba carioca firmou-se rapidamente principalmente por introduzir uma cadência diferenciada do samba baiano levado ao Rio de Janeiro pelas tias baianas e do estilo um tanto amaxixado surgido principalmente a partir da gravação de "Pelo Telefone” (Donga). A turma do Estácio laborou um samba mais ritmado acompanhado por instrumentos como surdos, tamborins e cuícas, e ainda os pandeiros e chocalhos. Havia outros sambistas frequentadores da Turma do Estácio, porém oriundos de outros morros cariocas, que seria os futuros “bambas” tais como Cartola, Carlos Cachaça, Nelson Cavaquinho, Geraldo Pereira, Paulo da Portela, Alcides Malandro, Manacéia, Chico Santana, Molequinho e Aniceto.

[77] Paulo Lins, autor do livro" Desde que samba é samba "chegou a pesquisar a ficha policial de Ismael Silva que fora preso por dois anos porque atirou numa pessoa. Mas, muitos sambistas eram presos apenas por fazer samba. Há citação a sífilis e crava, com todas as letras e gírias, que o músico era homossexual – suspeita que sempre ficou no terreno dos boatos. Foi assim, recortando e colando casos reais e ficcionais, que ele construiu o livro. Alguns personagens, como a prostituta Valdirene e o português Sodré, foram criados para dar tramas ao romance – Valdirene e Sodré, por exemplo, formam um triângulo amoroso com Brancura (o autêntico malandro da época). “Verdade mesmo é a invenção do samba”.

[78] O verdadeiro nome completo de Braguinha era Carlos Alberto Ferreira Braga e também por João de Barro (1907-2006) foi um compositor brasileiro, famoso pelas suas marchas de carnaval. Braguinha estudava Arquitetura e resolveu adotar o pseudônimo de “João de Barro”, justamente um pássaro arquiteto, porque o pai não gostava de ver o nome da família circulando em ambiente da música popular, que era mal visto na época. Pseudônimo este que adotou quando integrou o Bando dos Tangarás, ao lado de Noel Rosa, Alvinho e Almirante. Em 1931 abandonou o curso de Arquitetura e passou a dedicar-se à composição. E, no carnaval de 1933, conseguiu um dos seus primeiros grandes sucessos com as marchas como" Moreninha da Praia "e" Trem Blindado ", pouco antes do fim do Bando de Tangarás, ambas interpretadas por Henrique Foréis Dominges, mais conhecido como “Almirante” que se casou no ano seguinte com sua irmã Ilka. Toda a sua musicografia totaliza algo além dos quatrocentos e vinte títulos, uma das maiores e de mais sucessos da música popular brasileira.

[79] Noel de Medeiros Rosa (1910-1937) foi um sambista, cantor, compositor, bandolinista, violinista brasileiro e um dos maiores e mais importantes compositores da música brasileira. Teve importante papel na legitimação do samba de morro e no asfalto, ou seja, entre a classe média e o rádio que representou o principal meio de comunicação em sua época (mas não apenas para o samba, mas para a história da música popular brasileira). Noel Rosa nasceu de um parto muito difícil, o que exigiu o uso de fórceps pelo obstetra, como medida para salvar tanto as vidas da mãe e a do bebê. Nasceu com uma característica peculiar a hipoplasia (desenvolvimento limitado) da mandíbula que lhe marcou definitivamente as feições e destacou sua fisionomia de forma bem particular. Criado em Vila Isabel, filho de comerciante e da professora Martha de Medeiros Rosa. Era de família de classe média, tendo estudado no tradicional Colégio São Bento. Ainda adolescente aprendeu a tocar bandolim de ouvido e tomou gosto pela música. Passando logo para o violão e tornou-se figura conhecida da boemia carioca. Entrou para a Faculdade de Medicina, mas logo o projeto de estudar, mostrou-se pouco atraente diante da agitada vida de artista em meio ao samba e noitadas regadas à cerveja, lindas mulatas e muitos festejos. Noel foi mulherengo tendo assim ao mesmo tempo várias namoradas e foi amante de muitas mulheres casadas. Noel passou vários anos travando uma batalha contra a tuberculose. A vida boêmia, porém, nunca deixou de ser um atrativo irresistível para o artista, que entre viagens para cidades mais altas em função do clima mais puro, sempre voltava ao samba, à bebida e ao cigarro, nas noites cariocas, cercado de muitas mulheres, a maioria, suas amantes.

[80] “(...) Salve Estácio, Salgueiro e Mangueira,

Oswaldo Cruz e Matriz

Que sempre souberam muito bem,

Que a vila não quer abafar ninguém

Só quer mostrar que faz samba também (“...).”.

[81] Bamba é uma palavra polissêmica. Considerada gíria popular utilizada para designar pessoa perita em certo assunto, alguém exímio naquilo que faz. O bamba é um indivíduo corajoso, valente e decidido, um bambambã. No samba, existem algumas letras de música que mencionam a palavra" bamba ", é o caso, por exemplo, na música" Casa de Bamba ", de Martinho da Vila. Ou ainda, na música" Na cadência do samba ", do grupo Os novos Baianos. Bamba também é o nome de uma ave africana palmípede, isto é, uma ave que tem os dedos dos pés unidos por uma membrana.

[82] No debate Donga afirma que o que se canta no Estácio é marcha e não samba, já Ismael define o samba oriundo da casa da tia Ciata como maxixe. O fato é que existem claras diferenças entre os dois tipos de samba, tanto na parte rítmica, como na parte instrumental. Carlos Sandroni explica o assunto da seguinte forma: Fortes contrastes se manifestam neles entre duas maneiras de encarar o assunto (um valorizando a tradição, outro a modernidade), dois grupos de compositores a que se dá pesos diferentes (a turma da Tia Ciata e a do Estácio), duas reivindicações de origem (a da Bahia e do Rio), dois personagens-símbolo (o bamba e o malandro).

[83] Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) foi um historiador, antropólogo, advogado e jornalista brasileiro. Dedicou-se ao estudo da cultura brasileira. Foi professor da Faculdade de Direito de Natal, hoje Curso de Direito da UFRN. O Instituto de Antropologia desta universidade tem seu nome. Pesquisador das manifestações culturais brasileiras legou-nos extensa obra, inclusive o Dicionário do Folclore Brasileiro (1952). Entre seus muitos títulos destacam-se: “Alma patrícia”, “Contos tradicionais do Brasil”. Estudioso do período das invasões holandesas publicou “Geografia do Brasil holandês”. Suas memórias, “O tempo e eu” foram editadas postumamente. Quase chegou a ser demitido por estudar figuras folclóricas como lobisomem. Foi monarquista nas primeiras décadas do século XX. Durante a década de 1930, combateu a crescente influência marxista no Brasil, e, em parte, sob a impressão causada pela assim chamada Intentona Comunista de 1935, quando Natal foi palco e a sede da primeira tentativa de um governo fundado nas ideias marxistas da América Latina, Cascudo aderiu ao integralismo brasileiro e foi membro destacado e Chefe Regional da Ação Integralista Brasileira, o movimento nacionalista encabeçado por Plínio Salgado. Desencantou-se rapidamente com o integralismo, tal como outro famoso ex-integralista, Dom Hélder Câmara, e já durante a Segunda Guerra Mundial favoreceu os Aliados, demonstrando sua antipatia aos fascistas italianos e aos nazistas alemães. Fiel ao seu pensamento anticomunista, não se opôs ao Golpe Militar de 1964, mas protegeu e ajudou a diversos potiguares perseguidos pelos militares.

[84] Cassoulet é especialidade gastronômica francesa da região de Languedoc-Roussillon, em especial das cidades de Carcassonne, Castelnaudray e Toulouse. Há distintas versões mas é feito basicamente de feijão seco e carne, principalmente o confit d’oie (confit de ganso), confit de canard (confit de pato), salsichas, linguiça, carne de porco, e até carne de perdiz ou cordeiro dependendo da temporada do ano ou da variedade local.

[85] Feijão é nome comum para grande variedade de sementes de plantas do gênero da família Fabaceae. Proporciona nutrientes essenciais como proteínas, ferro, cálcio, vitaminas (principalmente do complexo B), carboidratos e fibras. O feijão-comum (Phaseolus vulgaris) é à base de várias sopas e da feijoada, misturado com arroz ou como elementos das tripas à moda do Porto e, ainda em alguma doçaria. Existem três espécies de feijão são muito cultivadas no Brasil: Phaseolus vulgaris, o feijão comum, cultivado em todo o mundo; Vigna unguiculata, vulgarmente chamado de feijão de corda, feijão macassar, caupi e outros, predominante na região Nordeste e na Amazônia Cajanus cajan, feijão-guandu ou andu, comum no nordeste, principalmente em sua variedade arbórea. O feijão preto é de origem sul-americana e fazia parte da dieta dos indígenas. Antes mesmo da chegada dos portugueses ao Brasil, já se conhecia na Europa diversas variedades de feijão, sendo comum no preparo a mistura de feijão com carnes. Na verdade, a feijoada não é originalmente brasileira, e sim, uma adaptação e evolução de uma cultura de berço europeu. Os acompanhamentos tais como: arroz, farofa, couve, laranja e torresmo foram acrescentados ao prato bem mais tarde.

[86] O processo de popularização do samba era iminente, mas certamente a política de Vargas contribuiu muito para a sua consolidação no panorama nacional, conforme conta o músico e historiador Magno Bissoli, autor da tese de doutorado"Caixa Preta: samba e identidade nacional na Era Vargas". Impacto do samba na formação da identidade na sociedade industrial: 1916-1945, apresentado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. A exemplo das doutrinas fascistas da Europa, o governo de Vargas sempre se caracterizou pela exaltação ao nacionalismo. Porém, em um Brasil com apenas quatrocentos anos de história cuja maior parte da população era composta de descendentes de escravos e pessoas marginalizadas, principalmente negros e mestiços, havia o grande problema da identidade nacional."O varguismo” intentou forjá-la com bases na cultura, lançando mão de artifícios semelhantes aos usados por Benito Mussolini na Itália, explica Bissoli. Os recursos utilizados por Vargas iam desde a projeção de filmes em paredes de casas, a instalação de alto-falantes em praças interioranas e entradas de favelas à estatização de veículos de comunicação e censura da imprensa, sempre sob o comando de órgãos estatais de controle cultural e midiático, como o Departamento Oficial de Propaganda, criado em 1931, ou o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), de 1939.

[87] Ary Resende Barroso, mais conhecido como Ary Barroso (1903-1964) foi compositor brasileiro de música popular e mais conhecido como autor de "Aquarela do Brasil” (quando inaugurou o gênero samba-exaltação ou samba cívico). Nos anos 1930, escreveu as primeiras composições para o teatro musicado carioca. Aquarela do Brasil teve a primeira audição na voz de Aracy Cortes e regravada diversas vezes no Brasil e no exterior. Recebeu o diploma da Academia de Ciências e Arte Cinematográfica de Hollywood pela trilha sonora do longa-metragem “Você já foi à Bahia?” (1944), de Walt Disney. A partir de 1943, manteve durante vários anos o programa “A hora do calouro”, na Rádio Cruzeiro do Sul do Rio de Janeiro, no qual revelou e incentivou novos talentos musicais. Autor de centenas de composições em estilos variados, como choro, xote, marcha, foxtrote e samba. Entre outras canções, compôs “Tabuleiro da baiana” (1937) e “Os Quindins de Yayá” (1941), “Boneca de piche”, etc. Durante os a década de 1940 e a década de 1950 compôs vários dos sucessos consagrados por Carmen Miranda no cinema.

[88] Zé Carioca conhecido nos EUA como Joe Carioca, é o apelido do papagaio José Carioca criado no começo da década de 1940 pelos estúdios de Walt Disney, em uma turnê pela América Latina, e fazia parte dos esforços americanos para reunir aliados durante a Segunda Grande Guerra Mundial (1939-1945) tal esforço foi chamado de" Good Neighbor Policy "ou Política da Boa Vizinhança. Os comunistas da época foram vorazes em criticar a figura do Zé Carioca e a cantora e atriz Carmen Miranda que foram acusados de encarnarem os valores do capitalismo através das figuras criadas por Hollywood e pelo Tio Sam. Zé Carioca foi criado pelo próprio Walt Disney dentro do Hotel Copacabana Palace. Impressionado com a técnica de J. Carlos, cartunista que desenhava as versões brasileiras de seus estúdios, Disney até o convidou para trabalhar em Hollywood, mas o convite foi recusado. Mesmo assim, como homenagem a J. Carlos, Walt Disney criou e enviou o personagem José Carioca para Carlos, dizendo esta ser uma homenagem ao cartunista. Hoje o Zé Carioca é mais do que um personagem ou mascote carioca, e quase ninguém se lembra de J. Carlos, sua inspiração, mas o personagem se tornou o elo entre a empresa Walt Disney World e o Brasil. Alguns especulam que o papagaio foi inspirado no sambista Paulo da Portela, outros que foi inspirado no cavaquinista paulista, José do Patrocínio Oliveira, o Zezinho, que inclusive dublou o personagem no filme “Saludo Amigos”. Uso do guarda-chuva pode ter vindo do Dr. Jacarandá, uma figura do folclore carioca da época. O Morcego Verde, cujo alterego é o conhecido Zé Carioca, é um super-herói Disney. Foi criado por Ivan Saidenberg, inspirado no Morcego Vermelho (Peninha), que ele também criou, e parodia o Batman. Uma curiosidade sobre Zé Carioca é a confusão que há entre este personagem e o papagaio jurado em Alice no País das Maravilhas. Zé Carioca aparece novamente ao lado de Donald e do Aracuã no segmento “Blame It on the Samba” (Culpe o Samba) do filme Tempo de Melodia (1948).

[89] O sambista Cyro Monteiro (1913-1973), o “Formigão”, foi um exímio “tocadores de caixinha de fósforo”. De madeira, a caixa de fósforos ganhou o menor tamanho possível: 48 milímetros de extensão, 36 milímetros de largura e 17 milímetros de altura. Agora, sim, ela, “que nasceu com a necessidade intrínseca de ser portátil”, como diz a designer Denise Dantas, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, cumpria o propósito para o qual foi inventada. E poderia ser, enfim, carregada no bolso da camisa, perto do corpo, do coração, sem risco de inflamar. Se não der para tocar caixinha de fósforos, invente outro instrumento. “Havia um tempo que, nas escolas de samba, os músicos faziam batucadas em frigideiras”, lembra o sambista paulistano Germano Mathias, conhecido por tirar o ritmo do samba de uma simpática latinha de graxa para sapatos “niquelada” (ou seja, pintada, “para não fazer propaganda gratuita”, adverte o músico). Já a sambista paulistana Miriam Batucada, morta em 1994, conseguia fazer de um teclado instrumento percussivo, ao tamborilar em suas teclas. E o próprio Elton Medeiros lembra, ainda, seu amigo Dilermano Pinheiro: “Ele tocava samba batendo num simples chapéu de palha”.

[90] Maria do Carmo Miranda da Cunha (1909-1955) mais conhecida como Carmen Miranda, foi cantora luso-brasileira. Sua carreira artística transcorreu no Brasil e EUA entre as décadas de 1930 e 1950. Nasceu em Portugal, mais precisamente em Marco de Carnaveses. Muito" avançada "para o seu tempo, Carmen Miranda - cuja imagem ficou para sempre associada aos penduricalhos ao pescoço e às frutas tropicais que lhe ornamentavam a cabeça - é considerada a pioneira do tropicalismo, movimento cultural brasileiro dos anos de 1960. Mas, tal afirmação ainda é desconsiderada por certos pesquisadores. Em 1935, recebe o apelido de" A Pequena Notável ", dado pelo célebre cantor-apresentador César Ladeira, com quem trabalhou na Rádio Mayrink Veiga Ela se consagrou em 1941, ao ser a primeira e a única luso-brasileira até hoje, a gravar as mãos e plataformas no cimento da calçada da fama do Teatro Chinês em Los Angeles. Em 08 de fevereiro de 1960 ganhou uma estrela póstuma na Calçada da Fama da Hollywood Boulevard. Carmen era a principal atração do Copacabana Night Club, famosa boate nova-iorquina, fundada em 1940 e que existe até hoje em Manhattan. O cartaz do" The Copa "é desde aquela época uma gravura estilizada de Carmen, em homenagem a cantora. Carmen Miranda tornou-se um" hit "nos EUA. Ela apareceu em desenhos animados Tom & Jerry, Popeye e Looney Tunes. Fora imitada e caricaturada por Lucille Ball, Bob Hope, Jerry Lewis, Mickey Rooney e Dean Martin. A imagem de Carmen era muito forte, cômica, engraçada, caricata. Acabou-se criando um verdadeiro estereótipo, o que nem sempre é positivo. Mesmo assim, ela foi sem dúvidas foi a artista latina mais bem sucedida nos EUA em Hollywood, e lá sua imagem ainda hoje é mais forte do que no Brasil.

[91] Nessa apresentação que ocorreu no Cassino da Urca com a presença de políticos importantes do Estado Novo, foi apupada pelos que a consideravam" americanizada ". Entre os seus críticos havia muitos que eram simpatizantes de correntes políticas contrárias aos Estados Unidos. Dois meses depois, Carmen voltaria ao mesmo palco e seria fartamente aplaudida por uma plateia mais afeita ao seu repertório, então já atualizado com respostas como" Disseram que Voltei Americanizada ", especialmente composta por Vicente Paiva e Luiz Peixoto, no mesmo mês gravou seus últimos discos no Brasil.

Eles não podiam perceber que ela, a seu modo, resistia à americanização já anunciada em 1940, talvez o antiamericanismo de Carmen não estivesse em nenhuma grande manifestação pública de nacionalismo. Talvez a resistência sutil fosse a forma encontrada para suportar a máquina americana do show business.

[92] Bossa nova foi um movimento da música popular brasileira do final dos anos cinquenta lançado por João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e jovens cantores e/ou compositores de classe média da zona sul carioca, derivado do samba e com forte influência do jazz. Inicialmente o termo era apenas relativo a um novo modo de cantar e tocar samba naquela época, ou seja, a uma reformulação estética dentro do moderno samba carioca urbano.

A palavra “bossa” apareceu pela primeira vez na década de 1930, em “Coisas Nossas”, samba do popular do cantor Noel Rosa: O samba, a prontidão/e outras bossas,/são nossas coisas (...). A expressão “bossa nova” passou a ser utilizada também na década seguinte para aqueles sambas de breque baseados no talento de improvisar paradas súbitas durante a música para encaixar falas. Alguns críticos musicais destacam certa influência que a cultura americana do Pós-Guerra, de músicos como Stan Kenton, combinada ao impressionismo erudito, de Debussy e Ravel, teve na bossa nova, especialmente do cool jazz e bebop. Embora tenha pouca influência de música estrangeira como o jazz, a bossa nova possui elementos de samba sincopado. Além disso, havia um fundamental inconformismo com o formato musical de época. Os cantores Dick Farney e Lúcio Alves, que fizeram sucesso nos anos da década de 1950 com um jeito suave e minimalista (em oposição a cantores de grande potência sonora) também são considerados influências positivas sobre os que fizeram a bossa nova. Um embrião do movimento, já na década de 1950, eram as reuniões casuais, frutos de encontros de um grupo de músicos da classe média carioca em apartamentos da zona sul, como o de Nara Leão, na Avenida Atlântica, em Copacabana. Nestes encontros, cada vez mais frequentes, a partir de 1957, um grupo se reunia para fazer e ouvir música. Dentre os participantes estavam novos compositores da música brasileira, como Billy Blanco, Carlos Lyra, Roberto Menescal e Sérgio Ricardo, entre outros. O grupo foi aumentando, abraçando também Chico Feitosa, João Gilberto, Luiz Carlos Vinhas, Ronaldo Bôscoli, entre outros.

[93] Manguebeat também grafado como manguebit ou mangue beat é movimento de contracultura surgido no Brasil na década de noventa em Recife que mistura ritmos regionais, como maracatu, com rock, hip hop, funk rock e música eletrônica. O movimento focou-se nas críticas o abandono econômico- social do mangue, da desigualdade de Recife (principalmente em razão do descaso do Estado fora do eixo Rio-São Paulo). Teve como ícone Chico Science falecido vocalista da banda Nação Zumbi, que junto com Fred 04, Renato L e Helder Aragão que idealizaram o rótulo" mangue "divulgando ideias, ritmos e contestações do manguebeat.

[94] Blanka fez várias aparições em outros títulos, além do Street Fighter II original. Blanka está disponível como um personagem jogável nos jogos da série Street Fighter EX: Street Fighter EX2, e Street Fighter EX3. Ele também fez aparições como um personagem jogável em Capcom versus SNK, e, Capcom versus SNK 2 e Street Fighter IV, ficando de fora em Street Fighter III. De acordo com o seu encerramento em Capcom versus SNK 2, Blanka pensava estar voando para casa, mas quando o avião cai, ele se encontra em um" zoológico ". Em Street Fighter RPG da White Wolf, Blanka é um híbrido animal, tendo adquirido seus poderes elétricos com enguias e suas habilidades atléticas com os macacos-aranha, além de ser um praticante de capoeira. Em 2008, o programa CQC enviou um repórter à Espanha, que fez algumas perguntas sobre o Brasil aos transeuntes espanhóis e lhes mostrava fotos de brasileiros ilustres, a fim de testar os conhecimentos dos europeus sobre nosso país. Apenas três de nossas celebridades foram reconhecidas por todos os espanhóis interrogados: Gisele Bündchen, Pelé e, é claro, Blanka.

[95] A relativa escassez de bibliografia a respeito da massificação cultural no Rio de Janeiro na primeira metade do século impediu de identificar a importância deste fenômeno, expresso de modo evidente no caso do teatro de revista, que também debatia diariamente a questão da identidade nacional para um público o mais amplo possível em meio à execução de música de todos os tipos, inclusive o samba.

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